Adiós, amigo!

Lenda das ondas grandes, o pernambucano Carlos Burle se aposenta das competições aos 49 anos e já mira na nova “tempestade brasileira”, apostando na força de jovens big riders nacionais

DOMADOR DE FURACÕES: O big rider pernambucano curte uma sessão tranquila no Arpoador (RJ) (Foto: Hugo Silva/ Red Bull Content Pool)

Por Bruno Romano

CARLOS BURLE PASSOU a última noite em claro. E olha que para manter esse pernambucano acordado já não basta mais uma previsão amedrontadora de um swell com ondas gigantescas ou a expectativa de um campeonato de big wave – cena da qual ele já é referência há três décadas. O que tirou o sono do big rider, prestes a completar 50 anos de vida, foi uma barca de surfistas brasileiros buscando elevar o nível do esporte nas águas turbulentas de Nazaré, no litoral de Portugal. No meio da sessão de free surf estava o jovem carioca Lucas “Chumbinho” Chianca, de apenas 21 anos, seu novo pupilo, em quem ele aposta as fichas para continuar o legado na arte de domar imensos monstros d’água.

Longe do turbilhão de espuma que marca uma das mais seletas e perigosas modalidades outdoor, o coração de Burle acelerava como se ele mesmo estivesse no meio do furacão. Dentro da casa que escolheu para passar a clássica temporada de ondas no Havaí, o atleta varou uma madrugada no fim de fevereiro vidrado nas notícias e vídeos que recebia de Portugal, pico que conhece bem – em outubro de 2013, ele pegou uma das maiores ondas da história por lá, no mesmo dia em que salvou a vida da surfista carioca Maya Gabeira após uma “vaca” quase mortal. Em outros tempos, ele estaria dentro da água de Nazaré com seus comparsas, mas era hora de curtir um merecido descanso.

DE BOA: Carlos Burle bota para baixo em Nazaré, Portugal, no fim de 2016 (Foto: Hugo Silva/Red Bull Content Pool)

Durante todo o ano de 2016, Burle treinou duro e competiu pela última vez no Big Wave Tour (BWT) da World Surf League (WSL), o circuito de ondas grandes da Liga Mundial de Surf, do qual já foi campeão em 2009, ano da criação do evento que ele próprio ajudou a alavancar. Na sua saideira, cravou duas finais, em Puerto Escondido, no México, e na própria Nazaré, fechando com um honroso 4º lugar na geral, entre 43 competidores, sendo 24 participantes por etapa – o campeão foi o sul-africano Grant Baker, o “Twiggy”, e o vice, o carioca Pedro Calado, outro nome a despontar no esporte, aos 20 anos.

Por mais que ainda tenha gás para se colocar à prova contra caras com menos da metade da sua idade, Burle resolveu pendurar de vez as quilhas. Na decisão que ele mesmo chama de “renascimento”, o pernambucano assume de vez a figura de “mentor zen”. Explica-se: se a talentosa e dedicada geração das pranchas já se firmou com a “tempestade” da brazilian storm (consagrada com os títulos mundiais de Gabriel Medina, em 2014, e Adriano de Souza, em 2015), Burle aposta no que chama de brazilian hurricane, ou “furacão brasileiro”, desta vez domando bombas nos picos mais temidos e respeitados do surf mundial.

JOVEM CINQUENTÃO: Burle prepara seu arsenal em Porto de Abrigo, próximo às bombas portuguesas de Nazaré (Foto: Hugo Silva/Red Bull Content Pool)

Seu entusiasmo não é nenhum devaneio de quem já tomou muita chacoalhada na cabeça – e mesmo assim sempre se reergueu, entre reviravoltas dentro da própria mente ou da comunidade que tanto defende. O BWT está mais forte do que nunca. E os brasileiros realmente têm um potencial enorme. Nesta conversa com a Go Outside, o quase cinquentão fala da aposentadoria dos eventos competitivos e do sonho de ver os jovens big riders brasileiros serem ainda melhores do que ele, aproveitando o rastro de uma linha insana e improvável que o próprio Burle enxergou lá atrás – e que teve a coragem de dropar.

PENDURANDO AS QUILHAS
“Dizer adeus é uma decisão muito difícil. Gosto de competir e me identifico com isso. Ajudei a construir o esporte e o ambiente que temos hoje. Antes, era muito mais complicado se estruturar e se manter com equipamentos e patrocínios para ir atrás de ondas grandes e realizar o que outros não conseguiam. Acontece que a nova geração chegou, e bem forte. Estou deixando o tour já com saudades, bem agora que o negócio está bombando. Mas é importante entender que este é o momento. Já participei das maiores competições do mundo. Não queria ser ‘expulso’, prefiro sair por cima.”

NOVOS MARES
“Estou chegando aos 50 anos, é um momento de reflexão. Puxei muito o ritmo nesta última temporada, fiz duas finais do Big Wave Tour contra moleques de 20 anos, e meu corpo sentiu. Estou me recuperando de tantos meses na estrada, me cuidando, fazendo ioga e meditando. A partir de agora, tenho certeza de que quero usar toda minha energia e experiência para ajudar a nova geração. Vou trabalhar como treinador e agente de surfistas e lançarei um novo programa na TV. Ainda abri uma produtora e estou com minha biografia saindo do forno. Enfim, é toda uma nova fase como profissional. Sinto como se fosse um renascimento.”

PROFESSOR BURLE
“Quando comecei a treinar o Lucas Chumbinho, em outubro de 2016, fizemos um pacto de que marcaríamos presença nas grandes ondulações, com ele bem treinado física e psicologicamente, sempre na hora e no lugar certos. Nossos planos são ambiciosos. Ele sabe disso. Quero ajudar a construir a carreira de um dos maiores atletas da história desse esporte. Eu vejo no Lucas um cara muito talentoso, inteligente, descolado e bastante vivido, mesmo com apenas 21 anos. O problema é que ele estava esbarrando em maus resultados, começando a cair na ‘pista’ e a perder o foco. Meu irmão, você quer ser lembrado como um talento que fracassou ou como alguém referência no que faz? Tivemos um papo desse dentro d’água, e ele sacou o que eu queria dizer. Depois, ele me falou que queria ser lembrado como um grande campeão. Enxergo no Chumbinho a continuidade do meu sonho. Não é todo dia que você encontra alguém com o mesmo pensamento e a mesma vontade de evoluir que a sua.”

FORMANDO ÍDOLOS
“Não consigo entender como alguns grandes ídolos do esporte no Brasil não usam a projeção que têm como ferramenta de transformação social. Muitos acabam virando apenas vitrines para vender produtos. Quando penso no Lucas, sei que preciso deixá-lo ser ele mesmo, mas me sinto na responsabilidade de passar valores importantes. Quero ajudar a tornar o Chumbinho um campeão e também um ser humano exemplar. Trabalhar a fama, o dinheiro e as tentações, de um lado, e as responsabilidades e as referências que precisa ter, do outro. Também não quero bloquear sua figura, ou seja, se aparecer algum tutor melhor no caminho, saio de cena e continuo presente como um parceiro. Treinei o Pedro Scooby, por exemplo, mas ele não quis seguir esse lado de competição, e tudo bem. É preciso respeitar a todos, sobretudo o esporte.”

SIGA O MESTRE
“O que a molecada tem de entender é que eles ainda podem seguir no surf competitivo por mais 20 anos. Só que, para isso, é preciso cuidar do corpo, da mente e da família. Como a vida na estrada é muito intensa, precisamos de uma base, de algo mais sólido. Trabalhar a imagem, as mídias sociais e a base de fãs é legal e importante, ok… Entretanto uma carreira vai muito além disso. Tudo o que construí foi na base do sacrifício, da dedicação, do empenho e de muitas abstinências. É dar prioridade a coisas como comer e dormir bem, ter uma relação respeitosa e íntima com o seu corpo. Gosto de orar, meditar, cuidar da horta em casa. Hoje, perto dos 50, se você me falar ‘bora surfar um mar gigante em Nazaré?’, eu me sinto muito à vontade para entrar na barca. Se eu tivesse vivido em meio a falsidades, como atleta, acho que não poderia aceitar mais esse convite.”

FORA DO NINHO
“Quando comecei a surfar em Recife, com 12 para 13 anos, pegar onda não era algo bem visto pela sociedade. Trago esse trauma em mim, e acho que é por isso que desenvolvi um lado de sempre querer entregar um pouco mais. O surfista era ligado àquele lance de vagabundo, de um cara envolvido com drogas e tal. Em toda minha adolescência, tive felicidade no esporte, mas vivi preconceito, dentro e fora de casa. Botei na cabeça que iria construir outra imagem do surf. E confesso que esse é o meu maior tesão, mais do que necessariamente ganhar um campeonato. Nesse longo caminho, já tive momentos em que eu não era sequer aceito como competidor, pois vivia fora do lifestyle da maioria. Sentia que não era aceito pela minha própria comunidade, e isso me doía. Mas eu mantinha o pensamento lá na frente e, hoje, sei que a comunidade me reconhece.”

COMUNIDADE ALTERNATIVA
“Lá atrás, cada big rider fazia suas fotos e vídeos por aí e dava um jeito de aparecer por conta própria. Você só conseguia ser bem-sucedido se tivesse entrada na mídia ou um bom patrocinador. O contexto atual elimina isso, deixando tudo mais justo. É claro que as notas são subjetivas, não é essa questão, mas, querendo ou não, competir é uma ótima plataforma para a comunidade em geral. Ainda não alcançamos o ideal – precisamos de mais etapas no BWT e melhores premiações, além de um qualifying para que seja justa a participação de todos no circuito –, mas sempre falei para todos os big riders que competir era a melhor forma de aparecer. Não adianta só dizer que é casca-grossa: ‘Pô, o cara surfa muito mais que neguinho da elite mundial’. Falar é fácil, difícil é ser um grande vencedor. É por isso que Adriano de Souza, Gabriel Medina, Kelly Slater e Mick Fanning são caras vencedores em todos os sentidos.”

REMADA TURBULENTA
“Quem começou essa história de competição foi o Gary Linden [surfista e shaper californiano, atual vice-presidente do Big Wave Tour e ainda na ativa nos mares aos 66 anos]. Outros caras importantes surgiram no caminho, como Greg Long, que eu conheci aos 18 anos, já como promessa da cena , e o próprio Grant Baker. O Peter Mel [big rider, comissário do BWT e comentarista da WSL] também foi fundamental. Esses aí sempre apostaram na competição como uma maneira de nos fortalecer. Por outro lado, caras como Laird Hamilton [waterman norte-americano, ligado ao surgimento do tow-in, em que o surfista de ondas grandes é auxiliado por um jet ski] fizeram parte da história, mas não abraçaram o movimento, opondo-se aos torneios. Dos que estão na ativa, o Shane Dorian não está preocupado em participar do circuito, e o Mark Healey sempre ficou um pouco em dúvida. Acontece que a entrada do elemento ‘competição’ coloca em cheque a supremacia desses caras. Eles são grandes ídolos, com certeza, só que também tinham coisas a perder, pensando apenas no individual, e não no coletivo. Veja o Twiggy, é um cara merecedor, bicampeão mundial, agora (e para sempre) uma referência no país dele.”

COMPETIÇÃO x FREE SURF
“Defendo o caminho da competição, pois isso traz um ambiente mais justo. Porém minha própria comunidade não acreditava no circuito de ondas grandes. Precisávamos de gente apostando tudo nisso, e eu era uma dessas pessoas. No começo ainda era bem complicado, mas já evoluímos muito, principalmente depois do campeonato em Jaws, no Havaí. Antes da entrada da WSL, você notava que os caras de fora metiam o pau. Hoje acho que está provado: quem caiu para dentro está fazendo seu nome. É o caso do Pedro Calado, por exemplo, que muita gente não conhecia e agora já é uma referência mesmo sendo muito jovem. Precisamos de estrutura, profissionalismo, chegar às Olimpíadas, tudo isso. A evolução no esporte como um todo vai trazer investimento para treinador, alimentação, saúde etc. É para o big surf prosperar. Uma modalidade sem estrutura é ruim para todos. Abre espaço para intriga, fofoca, minha turma contra a sua e tal. E aí, de uma hora para a outra, tudo desmorona.”

TOQUE FEMININO
“A entrada das mulheres é algo extremamente positivo na cena do big surf competitivo. Ainda falta mais investimento e mais meninas praticando para termos uma renovação grande e constante. Defendo que tudo deve ser feito em harmonia com a demanda, colocando baterias femininas em mares perfeitos, com condições boas. Se for assim, elas vão mandar muito bem. Há um conteúdo interessante aí, que pode ser a cereja do bolo. Vai trazer audiência, com certeza, mas precisa ser bem trabalhado, o que também depende de motivar a cena e dar mais espaço.”

O QUE VEM POR AÍ
“Presenciar a nova geração acelerando me dá muito prazer. Quero ajudar esses caras a evoluir. Imagino que a cena vai consagrar personagens únicos, gente de garra, determinação e ótimo preparo físico. As manobras e performances atingirão outro patamar, e logo alguém vai dropar uma morra de 80 pés e querer pegar um tubo. É só ver o que o havaiano Billy Kemper fez em Jaws: ele cava atrasando, bota a mão na parede, entuba e sai, parecia uma final em Backdoor, como aquelas clássicas entre Kelly Slater e Rob Machado. A nossa geração botava para dentro, mas esses moleques já estão melhores que o Shane Dorian. A galera está incrível, você assiste e parece coisa do outro mundo.”

BRAZILIAN HURRICANE
“A próxima ‘tempestade brasileira’ vai ter que se chamar brazilian hurricane, pois o tamanho da encrenca no big wave é bem maior [risos]. O Brasil está muito forte na cena, mas precisa ficar esperto com os gringos.”

EM CASA: Carlos Buler surfando Nazaré, em Portugal, onde planeja uma saideira do tour no fim de 2017 (Foto: Hugo Silva/Red Bull Content Pool)

SAIDEIRA
“Quando pego uma onda gigante hoje, o que fica marcado é a satisfação de surfar na minha idade. Os desafios agora são outros, principalmente comigo mesmo, com a certeza de que cheguei forte até aqui. Vou sair de cena no circuito, isso é certo, mas ainda quero correr um último campeonato. Prometi a mim mesmo que iria competir com 50 anos, idade que vou completar no dia 9 de novembro de 2017. Pode ser que a despedida seja em Jaws ou em Nazaré, vamos ver, não depende de mim. É a natureza quem vai dizer.”

BIG RIDER AOS 5O
Cinco grandes momentos que marcam a trajetória do nosso pioneiro free surfer de ondas grandes:

1998
O campeão moral
Na remada, Burle domina a temida Baía de Todos os Santos, no México, conquistando um “título mundial em ondas grandes” no reconhecimento da comunidade, colocando o país de vez no mapa do big surf, antes do atual Big Wave Tour.

2001
Sem medo de monstros
Ganha as manchetes ao surfar a onda considerada a maior até então, uma bomba de cerca de 22 metros de altura, no estilo tow-in (puxado de jet ski pelo parceiro Eraldo Gueiros), em Mavericks, na Califórnia, nos Estados Unidos.

2007
Entre os gigantes
Primeiro brasileiro (e até hoje único) a ser convidado para a lista principal do Eddie Aikau, reunião máxima do big surf, no evento realizado em Waimea, Oahu, somente
em condições clássicas
do mar no Havaí.

2009
Caneco em boas mãos
Burle se torna o primeiro campeão mundial de ondas grandes do circuito Big Wave Tour, mais exigente competição da modalidade, atualmente sob chancela da World Surf League (WSL).

2013
Sonho e pesadelo
Surfa uma das maiores ondas da história, em Nazaré, Portugal, medida em 30,5 metros, pouco depois de salvar a vida da carioca Maya Gabeira em um resgate após uma vaca no próprio pico.

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