Abra a cabeça, fisioterapia!

Será que estamos tratando as lesões do ligamento cruzado e de outros tendões de forma totalmente errada?

Por T.J. Murphy*

Especialista em estudos de biomecânica e neurociência, o norte-americano Dustin Grooms já viu de perto cenas feias de atletas que romperam o ligamento cruzado anterior (LCA) durante a prática de seus esportes. Em sua época como estagiário da equipe de médicos e treinadores do time de futebol americano Bengals, ele ficava impressionado com o difícil processo de reabilitar as cartilagens e os ligamentos destruídos dos jogadores lesionados. O tratamento, em geral, incluía gelo, elevação do membro, tratamento de partes moles e musculação. A equipe tinha milhões de dólares à disposição, mas as técnicas que estavam sendo usadas, segundo Dustin, “eram as mesmas utilizadas com jogadores de faculdade”. Além disso, com o protocolo de reabilitação padrão, raramente se recuperava de modo completo a estabilidade do joelho. Era comum ocorrer outra lesão e o atleta romper novamente o LCA.

Nos últimos tempos, Dustin, hoje com 32 anos e professor de treinamento atlético na Universidade de Ohio, publicou uma série de estudos sugerindo que, em toda lesão de articulação, a fisioterapia padrão não é suficiente porque não consegue acessar a neuroplasticidade – que é o processo pelo qual o cérebro restabelece conexões neurais danificadas. Se a reabilitação não abordar os pontos de fraqueza deixados por esse processo de restabelecimento de conexões, voltar ao exercício pode ser arriscado. Após o tratamento típico, no melhor cenário, os atletas podem torcer para ficar com uma articulação mais fraca do que antes; no pior cenário, será preciso fazer mais cirurgias: a ruptura do LCA é responsável por 350 mil cirurgias por ano só nos Estados Unidos.

Segundo Dustin, o segredo para um restabelecimento de conexões eficaz e contínuo é estressar as vias neurais e, assim, melhorar a biomecânica do paciente. Essa abordagem inclui exercício de avanço com restrição da visão e uso de rolo de espuma em locais específicos – tratamentos que você dificilmente conseguirá com a maioria dos fisioterapeutas.

“Nós nos tornamos especialistas em tecidos”, afirma Kelly Starret, fisioterapeuta norte-americana cuja clientela ciclistas do Tour de France e até bailarinos do San Francisco Ballet. “Somos muito bons em cirurgia de joelho e no tratamento de tecidos após a cirurgia.” Segundo Kelly, abordar padrões motores é também muito importante, porém “os seguros de saúde, em geral, não incentivam o fisioterapeuta a considerar esse aspecto”. O resultado, de acordo com ela, é que as características mecânicas ruins dos tecidos que estão cicatrizando nunca são corrigidas, persistindo apesar da reabilitação e aumentando a probabilidade de outra lesão.

Há ainda poucas pessoas que já adotam a abordagem neuroplástica. Brad Cox, também dos Estados Unidos, comanda a clínica Acumobility, em Boston, e trabalha com corredores, triatletas e competidores de corrida de obstáculos como a Spartan Race. Neste ano, Brad usou um rolo de espuma sob medida para corrigir a mecânica de corrida de Morgan Uceny, corredora olímpica de meia distância dos Estados Unidos, após ela sofrer uma lesão nas costas. “Na literatura científica, isso se chama ‘repadronização neuromuscular’”, afirma Brad. E envolve exercícios extremamente dolorosos, nos quais se contraem os músculos do quadríceps e, com uma bola de lacrosse, é feita uma pressão profunda em um músculo flexor do quadril. “Com isso, aumenta-se a tensão em grupos musculares maiores e ao longo das linhas da fáscia.” O lado bom é que músculos pequenos e não utiizados são reativados. O lado ruim é que aguent ar esse tratamento pode parecer uma tortura.

Dustin tem usado abordagens menos dolorosas, incluindo interferir na visão para reativar vias sensoriais. Em um artigo publicado na revista científica Journal of Orthopedic and Sports Performance Therapy, Dustin e colaboradores detalharam como o cérebro, de forma ineficiente, conta com a visão para estabilizar uma articulação lesionada e como o processo de confundir essa comunicação – com o uso de óculos estroboscópicos durante a reabilitação com repetições, saltos e exercícios – força a adaptação. “O cérebro desiste de usar a visão para estabilizar a articulação e aumenta a quantidade de informações vinda dos receptores sensoriais restantes”, explica Dustin. Assim o organismo reaprende a usar os músculos e tendões para se estabilizar.

É improvável que os seguros de saúde venham a cobrir esse tipo de tratamento de reabilitação no futuro próximo; a ciência da neuroplasticidade ainda é muito nova. Entretanto os atletas estão interessados: a agenda de Dustin está cheia de palestras em congressos de medicina esportiva, e o livro de Kelly, Becoming a Supple Leopard [Como Se Tornar um Ágil Leopardo, em tradução livre], é campeão de vendas nos Estados Unidos. Talvez clínicas como a Acumobility consigam, um dia, tirar a fisioterapia da medieval terapia repouso-gelo-compressão-elevação.

Liberte-se!

Qual é a primeira tarefa depois de uma cirurgia de articulação? Reduzir a inflamação e
ajudar na cicatrização do tecido. E quando a reabilitação vigorosa começar, você pode
fazer alguns exercícios para neuroplasticidade em casa:

  • Na clínica Acumobility, de Brad Cox, em Boston, o processo de reestabelecimento
    de conexões começa com uma avaliação para localizar as limitações. No caso de
    LCA rompido, isso pode significar fazer exercícios para os quadríceps com um rolo de
    espuma, usando todo o peso do corpo. A partir de uma posição bem desconfortável,
    o paciente flexiona e extende a perna por dois minutos, contraindo os músculos da
    região. Parece fácil, mas é aí que vem a dor. Após dois minutos, preste atenção a
    qualquer diferença que sinta ao se movimentar e a qualquer amplitude de movimento
    que possa ter recuperado.
  • Dustin Grooms e colaboradores tiveram bons resultados com terapias de movimentos
    mistos, como avanço em múltiplos planos, com uso de óculos estrobocópicos.
    As visões intermitentes podem diminuir o feedback para o sistema nervoso,
    obrigando o cérebro a fazer uma “regulação positiva” dos mecanorreceptores que
    sobraram na articulação, recuperando as terminações nervosas.
  • Kelly Starrett defende uma abordagem menos tecnológica. Assim que a recuperação
    permitir, ele recomenda fazer agachamento com o peso do corpo, diariamente,
    com foco na realização perfeita do movimento. “Você pode interferir no uso da visão
    fazendo agachamento em uma perna só, com os olhos fechados”, diz ele. “Ou realizar
    o exercício enquanto lava a louça.”

*Matéria publicada na edição nº 147, de dezembro de 2017.

 

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