A violência doméstica superada pelo esporte

Nicole Barreto sofreu agressões em um relacionamento e o esporte foi sua retomada

A atual rotina de Nicole é saltar de base jump toda semana - Foto: Guilherme Taboada

Por Thaís Valverde

Se você pratica algum esporte, seja outdoor ou não, algo lhe motivou a praticar. O da fisioterapeuta Nicole Barreto, de 32 anos, foi a violência doméstica. Em 2014, a carioca viveu um relacionamento abusivo em que sofreu agressões do ex-companheiro. Abalada e perdida, ela chegou a procurar aulas de muay thai na tentativa de aprender a se defender, mas a luta não era o seu universo.

Na mesma época, ao ler uma reportagem sobre as trilhas que existem no Rio de Janeiro – que ela mesma nunca havia feito -, decidiu conhecer a Pedra Bonita. Nicole ficou encantada com a beleza, com o desafio, e a atividade física ao ar livre virou sua grande “válvula de escape” em um momento em que seu emocional estava completamente abalado.

A vida outdoor de Nicole surgiu ao longo das trilhas que procurava fazer todos os finais de semana. Foi subindo os picos do Rio de Janeiro que também conheceu a escalada. Ficou marcada na memória a data em que fez o Costão do Pão de Açúcar, dia 31 de dezembro de 2014. “Apesar de ser um trecho baixo, lembro que quando caí pela primeira vez fiquei desesperada. Mas, quando vi que estava segura com os equipamentos, fiquei alucinada com a adrenalina da escalada.”

Da trilha e escalada, Nicole foi procurando adrenalina cada vez mais longe da terra. Em 2016, teve um breve relacionamento com Fernando Brito, atleta de wingsuit que faleceu em maio de 2016 após saltar da Pedra da Gávea, na zona sul do Rio, e com ele descobriu o paraquedismo e o base jump. “Fiquei encantada e ao mesmo tempo assustada ao vê-los se atirarem daquela montanha, mas era realmente emocionante”, disse Nicole. Quando Fernando faleceu, eles não estavam mais juntos, porém ela afirma que admiração e a gratidão por apresentar as duas modalidades continuam para sempre.

Salto de base jump na Pedra da Gávea, Rio de Janeiro – Foto: Vinicius Diniz

Logo após dar os seus primeiros saltos de paraquedas em Boituva (SP), ela decidiu que queria ser instrutora de paraquedismo. Um dos seus instrutores a aconselhou a aprender a dobrar paraquedas e trabalhar em alguma “Drop Zone” (escola de paraquedismo) fora do Brasil. Nicole procurou pessoas que pudessem direcioná-la, fez amigos e contatos na área, realizou a quantidade de saltos que precisava para poder saltar fora de Boituva e foi para Wisconsin, nos EUA, trabalhar como dobradora de paraquedas por seis meses. A experiência se mostrou enriquecedora, mas também foi marcada por um momento desagradável. Foi lá fora que ela ouviu de um brasileiro que “por ser mulher nunca conseguiria dobrar de forma rápida e melhor que um homem”.

Para alguém que superou a violência doméstica, que estava em um processo de autoconhecimento no esporte, o comentário funcionou como mais um impulso para alçar vôos maiores. “O esporte foi fundamental para meu empoderamento. Para a retomada da minha autoestima e melhora da minha qualidade vida. Isso não iria me derrubar”, explica.

Nicole continua sendo exceção em alguns locais e ainda ouve certos absurdos. “Ainda há homens que chegam com segundas intenções quando chamam para fazer um salto”, conta. Atualmente ela é uma das únicas mulheres que praticam regularmente base jump no Rio de Janeiro. Dá para contar nos dedos as base jumpers brasileiras, entre elas Júlia Botelho, Paloma Oliveira, Rita Birindelli e Patrícia Porto.

Nicole usa os conhecimentos de escalada para alcançar os picos para saltar – Foto: Gideão Melo

A sigla B.A.S.E provém de “Building Antenna Span & Earth”, ou em português, “Prédio, Antena, Ponte e Terra”, e onde o Earth se refere a cliff. Recentemente, Nicole encarou um desafio de fazer a sigla em menos de 24 horas. “Estava em Boituva a caminho do Rio quando, brincando, eu e um amigo também base jumper decidimos fazer o desafio e aproveitar alguns lugares ao longo da estrada”, explica. Nicole e o instrutor de paraquedismo Rafael Lima saltaram de uma antena em Penedo (RJ), uma ponte em Resende (RJ), do Morro da Providência (RJ) e fecharam com um prédio na Barra da Tijuca, no Rio. O desafio começou às sete horas da manhã e terminou meia-noite.

O base jump é considerado um dos esportes mais perigosos do mundo. Mesmo que o paraquedas abra, o vento ou um salto fraco podem deixar o atleta perto demais de onde pulou e causar um acidente fatal. Nicole reconhece o perigo e, quando Fernando Brito faleceu, ela mesma questionou o esporte. Entretanto sua paixão prevaleceu. “A adrenalina do salto já está na minha essência”. Para ela, a jornada até o base jump lhe deu a oportunidade de experimentar a vida de maneira integral, de todos os sentimentos humanos, toda a energia da natureza, e se conectar mais profundamente consigo mesma.

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