Pedalando Dá

Após ficar anos longe da bike, José Ramalho voltou ao selim para realizar um projeto pessoal: atravessar três cordilheiras

Depois de anos sem pedalar, JOSÉ RAMALHO voltou ao selim de uma bicicleta para realizar um projeto pessoal: atravessar três cordilheiras – na América do sul, no Marrocos e o Himalaia, todos de bike. A seguir ele conta como foi a primeira das suas jornadas

UM BICHO URBANO, WOKAHOLIC E ESTRESSADO DE 42 ANOS. Sedentário por natureza e escritor por profissão, via os anos passarem pela minha vida em frente ao computador, muitas horas por dia. Em 2004, quando a balança chegou aos três dígitos (103, para ser mais exato), resolvi mudar de vida.


Na academia, me deparei com a chatice de pedalar numa ergométrica, sem ver a paisagem mudar. Decidi então pedalar ao ar livre. Primeiro foram 5 km, depois 10, 20 e, de repente, estava pedalando 30 km por dia e até 80 nos fins de semana – algo que parecia impossível no mês anterior.


Veio então o convite de um amigo para fazer o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, de bicicleta – 1.000 km em quinze dias. Achei que não seria capaz, mas aceitei. Completei o percurso em 13 dias, sem heroísmos, respeitando meus limites (no site
www.grandesaventuras.com.br você encontra um diário desse pedal). Animado e com a auto-estima lá em cima, decidi que as longas viagens de bike passariam a fazer parte da minha vida.


Criei então o projeto Travessias, onde me propus a atravessar três cordilheiras de bicicleta: os Andes, na América do Sul; os Atlas, no Marrocos, e o Himalaia, entre Nepal e Tibete. A primeira delas, a dos Andes, já completei. A travessia foi planejada de forma a cruzar a América do Sul, do Pacífico ao Atlântico, num percurso de 1.083 km em aproximadamente 13 dias. Convenci três amigos a me acompanharem – para minha sorte, três médicos: dois cardiologistas, Beto Lorga e Ney Guiger, e um otorrino, João Padovani. Pensei com meus botões: “Só falta um ortopedista para eu estar completamente assistido”.

PARTINDO DE PUERTO MONTT, no Chile (a 900 km de Santiago e à beira do oceano Pacífico), cruzaríamos os Andes pelo Passo Cardenal Antonio Samore (a 1.321 metros de altitude) em direção a Bariloche, na Argentina. Esse percurso, de aproximadamente 300 km, seria feito 80% em asfalto e o resto por terra. De Bariloche iniciaríamos uma jornada de 800 km passando pelas cidades de Maquinchao, Gan Gan, Telsen, até Puerto Madryn, já de cara para o Atlântico.

No primeiro dia da jornada, pegamos 70 km de asfalto até Ensenada, aos pés do imponente vulcão Osorno. O dia seguinte reservaria uma pedalada curta, apenas 30 km, mas os mais íngremes de toda a travessia. Quinze km pela encosta do Osorno nos levariam de 300 metros a 1.300 metros de altitude. O pesado aclive não permitia mais do que 7 km/h de velocidade. Em alguns momentos eu “disputava” a subida com alguns mochileiros que iam a pé. Pedras soltas tornavam a pedalada quase impossível em alguns trechos, obrigando-nos a empurrar a bike pelo menos por uns 300 metros durante a subida. O esforço foi recompensado com uma vista magnífica do lago aos pés do vulcão e com a vertiginosa descida. Quase três horas para subir e menos de 20 minutos para descer, com o recorde de velocidade da viagem: 76 km/h.


Os dois próximos dias foram dedicados a atravessar os Andes. No primeiro, um percurso de 115 km para atingir Águas Calientes, ainda no Chile, foi feito quase que inteiramente sob uma forte chuva e uma temperatura ao redor de 12 ºC, que tornaram a pedalada muito difícil. Foi necessária muita força de vontade e determinação para não deixar o moral cair. Pedalar em duplas e manter conversas constantes ajudaram a enfrentar o mau tempo. Cansados, os últimos 5 km foram pura subida, mas a natureza foi generosa. Com fontes termais que dão nome ao local, Águas Calientes nos recebeu com um banho reconfortante na piscina naturalmente aquecida do hotel.

O dia seguinte, com o clima melhor, foi marcante, pois cruzamos efetivamente os Andes até Vila Angostura, já no lado argentino. 40 km de subida numa estrada com inclinação parecida à da Via Anchieta, que liga Santos a São Paulo, nos levaram ao ponto mais alto da viagem, literalmente falando. Os Andes estavam vencidos. Psicologicamente foi muito positivo para todos do grupo, embora fisicamente sinais de fadiga já se fizessem notar.

ATÉ BARILOCHE o percurso foi marcado pelo tempo instável e pelas chuva e fortes rajadas de vento, que mudavam repentinamente a temperatura. Às margens do lago Naruel Huapi, podíamos ver bolsões de bom tempo entre duas frentes chuvosas.

Aproveitamos esse bolsão para cair na estrada. Felizmente, após 25 km, quando chegamos ao início da estrada de terra, o mau tempo ficou para trás. Conosco seguiu apenas o vento patagônico, que nos proporcionaria algumas alegrias e muitas tristezas.


Logo no início da terra, o vento soprava tão forte, e pelas costas, que pude experimentar ser levado por ele morro acima sem pedalar. Como crianças, brincávamos de veleiros.

Ficávamos em pé, para aumentar a área exposta, e o resto era por conta do vento. Numa ocasião consegui subir 300 metros de aclive a 15 km/h, sem pedalar. Tanta alegria terminou na primeira curva, quando o mesmo vento amigo se tornou um temível adversário. Com rajadas que desequilibravam e poeira que dificultava a visão, havia horas que pedalar era perigoso demais.


Muitos quilômetros tiveram de ser vencidos naquela situação até o local de nosso primeiro acampamento. A montagem das barracas também não foi fácil e, mesmo parcialmente abrigadas do vento por algumas árvores, dormir seria um problema. Mas, felizmente, lá pelas dez da noite o vento parou. Nas próximas noites a rotina seria alternada entre dormir acampado ou em quartos de hotéis e albergues das poucas vilas que cruzaríamos até nosso destino final.


O vento patagônico seria nosso indesejado companheiro por todo o percurso até o Atlântico, mas não tão forte como naquele primeiro dia. Contudo, o maior inimigo da viagem acabou vindo não do ar, mas da terra. As “costelas de vaca”, aquelas ondulações transversais das estradas de terra, foram as vilãs. Implacáveis, apareciam de repente, em subidas, descidas e planos. Depois de três dias em cima delas, antebraços e tríceps moídos nos faziam sonhar com alguns quilômetros de asfalto que só apareceriam 600 km depois.

AS NOITES NOS ACAMPAMENTOS eram às vezes complicadas. O vento batendo na barraca e os cachorros latindo atrapalhavam o sono, e nas duas vezes que dormimos perto de casas de fazenda, o pontual galo cantando às cinco da manhã fechava a noite mal dormida.


O reflexo disso na performance do dia era notado já nos primeiros quilômetros de pedalada. Mas com uma boa e regular alimentação, os corpos cansados davam conta das metas planejadas. Em terra, pedalamos uma média de 100 km por dia, com um máximo de 160 km entre Gan Gan e Telsen.


Pode parecer sofrido, mas o prazer de pedalar por lugares rústicos e desérticos como a Patagônia é indescritível. O contato com a natureza é mágico para urbanóides como eu. Conviver com a fauna da região foi muito rico. Cavalos selvagens galopando próximos do grupo, uma lagoa repleta de flamingos, coelhos, tatus, falcões, águias, nhandus (uma espécie de ema) e grupos de guanacos, um primo menor das lhamas, correndo assustados dos “bichos” de duas rodas, formaram nosso zoológico particular. Tudo isso coroado com uma visita que fizemos, depois de chegar a Puerto Madryn, à península de Valdez, onde em março e abril as orcas usam uma colônia de leões marinhos como uma grande lanchonete. Ousadas, elas atacam os leões na praia, saindo inteiramente da água em seus ataques. Um espetáculo cruel, mas inacreditável de se ver.


Ao atingir as areias de Puerto Madryn, a jornada de 1.083 km estava completa. A sensação não era de vitória, confesso, mas de pesar por ter terminado. Voltar para a frente do computador e dormir sem ver estrelas seria estranho. Mas era preciso – afinal de contas, eu precisava começar a planejar próxima e ainda mais desafiadora travessia, o Himalaia, que espero fazer entre setembro e outubro deste ano.