O lado B do Grand Canyon

Explore o trecho menos visitado do famoso cânion norte-americano

Explore o trecho menos visitado do famoso cânion norte-americano em um trekking de quatro dias que cruza a belíssima reserva indígena de Havasupai, no Arizona

Texto e fotos Caio Vilela

“Indescritível. Não há adjetivo, fotografia ou cinema Imax que consiga reproduzir a grandiosidade deste lugar. Uma experiência no mais puro estilo Lucy in the Sky with Diamonds, sem aditivos químicos. Quem já visitou os mirantes da beiradinha do Grand Canyon, nos Estados Unidos, conhece a ponta do iceberg. Você, meu amigo, prepare-se para ir mais fundo.” O comentário do velho índio navajo ao saber de meu destino me enchia de expectativas.

AGUACEIRO: A cachoeira Mooney vista do mirante superior, pouco acima da via ferrata

Eu me juntara a um grupo de dez jornalistas europeus e americanos em um ensolarado final de semana de outono, para encarar um trekking em um dos cantos menos visitado do Grand Canyon: a reserva indígena de Havasupai. Durante o papo no voo até Phoenix, capital do Arizona, escutei lendas e histórias reais daquela região mágica, sagrada para os indígenas e cobiçado pelos exploradores.

Localizado a oeste do miolinho turístico do chamado South Rim do cânion, o território protege um tributário do rio Colorado, escultor de diversas cachoeiras, piscinas naturais e cânions menores, decorados com muito calcário. Essa porção do Grande Cânion é acessível apenas para quem encara a pé a trilha de 14 km até a área de camping semi-selvagem próximo às quedas, de onde se tem uma boa base para dias recheados de banhos e lindas vistas.


GRANDE CÂNION: Mulas cargueiras no começo da trilha, descendo rumo ao acampamento no fundo do cânion

Nossa investida de quatro dias foi conduzida por dois veteranos guias da Arizona Outback Adventures (AOA), uma cooperativa de guias locais, detalhe que fez do acampamento selvagem uma generosa zona de conforto, com destaque para a inspirada gastronomia sobre a mesa de piquenique. Porém você também pode chegar ali sobre o lombo de uma mula, a bordo de um helicóptero ou, no outro extremo, carregando sua mochila cargueira sozinho. Nas linhas a seguir, minha experiência relatada sem filtro.

Dia 01 (14 km): Entrando no clima

Às seis da manhã, a luz dourada do sol nascente cobre de tons de ocre as rochas do deserto na saída de Phoenix pelas largas pistas expressas do norte da cidade. Cinco horas de estrada depois, após passar por Seligman, percorrer um trecho curto da histórica Rota 66 e quebrar à direita no minúsculo povoado de Nelson, adentramos as terras indígenas pela estreita e desértica Indian Route 18. O ponto final da estrada é o começo da trilha: o mirante Hualapai, na beirada do grande cânion, onde um estacionamento sedia um almoço improvisado e o ritual de carregamento das mulas com bagagens e equipamentos.

Durante esse processo, escuto um “cara pálida” perguntar algo sobre as distâncias do dia ao índio que lida com as mulas. A resposta veio em cinco ou seis frases bem entonadas em seu idioma nativo. Olhos arregalados congelam no rosto do turista durante uma pausa de três segundos, até que o nativo retoma o papo com uma colocação irônica: “Oh, desculpe-me, esqueci! Você não fala Americano, né? Fala apenas inglês”. Com humor e uma mensagem subentendida, o comentário traz todos para o chão: estamos adentrando as terras de seus ancestrais, e todo gesto deve conter respeito.


SIGA EM FRENTE: Placa na entrada do vilarejo indígena indica o caminho para as quedas e a área de camping

Lar para 22 etnias nativas, o Arizona é o mais “indígena” entre todos os Estados Unidos. Hopi, Navajo e Havasu são algumas da tribos mais numerosas e, embora parcialmente miscigenadas, cada grupo mantém sua identidade cultural bastante viva e presente, nas reservas ou nas cidades. Dos 1,9 milhão de índios registrados no censo de 2008 em todo o país, aproximadamente 307 mil são da etnia navajo. Só na capital, Phoenix, vivem 44 mil nativos. É uma das cinco cidades norte-americanas com maior população indígena, competindo com Anchorage, no Alasca e… Nova York, que está na lista apenas por ser a cidade onde todos os números são superlativos.

No Arizona a cultura indígena está em toda parte. Nas questões políticas, na decoração urbana, na música, na comida, nos museus. Todo mês de março o Museu Heard de Phoenix sedia uma feira de arte nativa, que reúne mais de 700 artistas indígenas, reforçando a presença dessa indígena no Estado.

Nossas bagagens vão com o comboio de mulas. O grupo de caminhantes segue logo atrás, assim que baixa a poeira. Iniciamos a trilha presenteados com amplas vistas da natureza monumental, mas logo adentramos um cânion paralelo onde o percurso segue por 13 km com pouco declive até chegar à vila indígena. No vilarejo Supai, há 700 habitantes, todos nativos.

Os havasu são os tradicionais guardiões do cânion – a etnia habita o Grand Canyon há pelo menos 800 anos. “Havasu” significa Água Verde, “Pai” significa povo. Havasupai é o “povo da água verde”, protetores das nascentes. Após cinco horas de trilha, com muitas pausas para fotos e descanso, chegamos à área de camping a tempo de montar as barracas antes de o sol se por.

Dia 02 (12 km): Mooney e Beaver Falls

Mesas de piquenique e um banheiro químico garantem um mínimo de conforto na área de camping situada próximo a uma fonte de água potável. Sob a luz do amanhecer, refletida nos paredões de rocha sedimentar, as bochechas rosadas nos rostos dos trekkeiros parecem maquiadas. A um quilômetro dali, por uma trilha bem marcada, a cachoeira de Mooney é a primeira visita. Chegando por cima, descemos até o poço principal utilizando uma via ferrata mantida pelos índios.


LABUTA: A cozinha do acampamento em plena atividade, pouco antes do jantar

Mooney Falls recebeu este nome após um mineiro chamado Mooney falecer por aqui em 1882. Há várias versões da história, mas a principal conta que, no intuito de prosseguir com a exploração do cânion, ele foi suspenso por seus colegas em uma corda sobre o penhasco. Incapaz de seguir para cima ou para baixo, depois de muito tempo e exaustão, acabou despencando. As más línguas dizem que Mooney não era o mais querido patrão entre seus empregados, dando a entender que a corda foi cortada de propósito. Controvérsias à parte, um fato certo é que, no dia seguinte, um índio foi visto usando as botas de Mooney, o que fez todos descobrirem que os nativos já conheciam um caminho que dava acesso ao fundo do cânion, antes mesmos dos mineradores.

O riacho abaixo de Mooney Falls está cercado por videiras silvestres e se parece com um jardim artificialmente bem cuidado. É uma bela área da garganta do cânion, com cascatas menores e piscinas de largura generosa. Quem segue para as próximas quedas, Beaver Falls, deve passar obrigatoriamente por aqui. Beaver Falls fica na confluência dos cânions Beaver e Havasu, 5 km abaixo de Mooney Falls. Cerca de 8 km depois, o curso d’água encontra o majestoso rio Colorado.

Nosso grupo caminha sob a orientação dos guias Gary E., um touro de força e saúde de 64 anos, e Josh Kloepping, de 31 anos. Josh conta que viveu aqui o momento mais decisivo de sua vida: durante um feriado acampando com uma namorada, ele conheceu os guias da AOA e decidiu embarcar nessa carreira. Como fizeram Josh e a namorada, dezenas de trekkeiros independentes ocupam as áreas de camping todos os verões. A trilha está aberta para qualquer um que tenha equipamentos, autonomia e experiência suficiente para se aventurar pela reserva. O único pré-requisito é o agendamento prévio de datas para garantir espaço no camping. Os valores são os mesmo para todos: US$ 17 por pessoa por noite e US$ 35 dólares pelo ingresso na reserva.

Dia 03 (12 km): New Navajo e Rock Falls

No dia seguinte, seguimos por um caminho alternativo no fundo de um cânion estreito, onde as camadas de rocha sedimentar expõem a história geológica da grande fissura no planeta. O Grand Canyon pode não ser o mais profundo, nem o mais extenso do mundo, mas certamente é o mais impressionantes visualmente.


NA PAZ: A infra da área de camping, que conta com mesas de piquenique e um banheiro químico

Em números, o cânion perde para o Cotahuasi, no Peru, com 3.354 metros, duas vezes a profundidade do Grand Canyon. Dentro dos EUA, o mais profundo é o Hells Canyon, com 2.436 metros, na divisa dos estados de Oregon e Washington.

Tecnicamente o Grand Canyon tem 446 km de extensão, até 29 km de largura e, em seu maior desnível, atinge uma profundidade de aproximados 1.600 metros. Quando e como exatamente a grande fenda no deserto se formou é objeto de estudos de geólogos até hoje, mas se sabe que cerca de dois bilhões de anos de história geológica estão explícitos em sua rocha sedimentar, de onde se conclui que o rio Colorado e seus tributários cortaram a terra seca do platô, camada após camada.

A caminho das quedas, uma conversa com o guarda-parque Edmond Tilousi, nativo do vilarejo Havasupai, nos deixa a par dos perigos da região – o maior deles são as enchentes. Trombas d’água, chamadas localmente de flash floods (enchentes repentinas), são um risco contínuo por ali. “Atualmente a tecnologia nos ajuda a prever as catástrofes. Cada vez que um volume de água se forma na parte alta, nosso time de guardas-parque avisa quem está acampando para sair de perto do rio. No passado, a tensão e os riscos eram muito maiores”, conta Edmond.

Durante uma desastrosa enchente em agosto de 2008, muito do que era a infraestrutura básica existente por ali foi destruída, incluindo o banheiro do camping. Josh conta que “há males que vem para bem”, já que tamanha tragédia atraiu atenção para a reserva e trouxe um investimento de meio milhão de dólares que bancou a construção do novo sistema de banheiros químicos de baixo impacto ambiental na área de camping.


CARTÃO-POSTAL: O guia atravessando Havasu Creek, o rio que dá origem às quedas

Seguimos para uma visita a uma mina abandonada e um banho nas quedas de Rock Falls e New Navajo Falls. No caminho, nossos guias nos mostram uma yuca, bromélia fibrosa de folhas pontiagudas que funciona como uma agulha natural com fio resistente, quando rompida na ponta e desfiada. É apenas um dos recursos naturais utilizados com sabedoria há séculos pelos indígenas.

Dia 4 (14 km): De volta a Hualapai

O caminho de volta para a civilização é marcado por uma dura subida sob o sol implacável. Os primeiros desfiladeiros e seus típicos cactos inevitavelmente fazem lembrar os cenários de desenho animado do veloz Papa-Léguas e do cansado Coiote.

Conversando com a repórter Julia Beaumet, companhia de caminhada e caminhante experiente, a serviço de um jornal francês, concluímos que o trekking pode ser classificado com nível intermediário de dificuldade. Mas qualquer um com gosto por caminhadas se sentirá estimulado a passar dias explorando região do povo da água verde, superando seus limites rodeados por uma das paisagens mais mágicas do continente americano.

VAI LÁ

> No site havasuwaterfalls.com você encontra todas as regras e orientações para fazer esse trekking, com ou sem acompanhamento de guias e mulas de carga.

> Para uma viagem guiada em alto estilo, procure os guias da Arizona Outback Adventures (aoa-adventures.com), que conta com uma lista dos melhores profissionais do Arizona.

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