Lições da montanha

Brasileira relata expedição que fez ao norte da Argentina com o namorado


NOVO LAR: Maria feliz sob seu teto (FOTOS: Pedro Hauck/ via pedrohauck.net)

Em dezembro/ 2014, a paranaense Maria Tereza Ulbrich embarcou numa viagem com o namorado, o montanhista e geógrafo Pedro Hauck. De carro, o casal explorou quatro montanhas de mais de seis mil metros no norte da Argentina que são praticamente desconhecidas. E, segundo o historiador do montanhismo brasileiro, Rodrigo Granzotto Perón, eles foram os primeiros brasileiros a escalar o Nevado Quewar (6.154 metros) e o vulcão Socompa (6.051 metros).

Mas mais do que assinar uma conquista para o montanhismo, Maria Tereza voltou à civilização com uma nova noção sobre o significado de “felicidade”. Descubra a seguir no depoimento que ela nos enviou:

"Você recebe um convite para viajar para a Argentina e, primeiramente, pensa que será uma viagem a dois, romântica… Buenos Aires! Tango! Empanadas! Jantares! Vinhos! Passeios turísticos!


Ops… Aí você lembra que namora um guia de montanha.


Em dezembro de 2014, eu e o Pedro partimos de carro rumo à região da Puna, no noroeste da Argentina. Dividindo a direção por retas intermináveis, tínhamos como objetivo escalar cinco montanhas em aproximadamente 20 dias. Então, pé na estrada!


Mas o que há de romântico em escalar montanhas?

SEM VOLTA: Maria rumo ao topo do Quewar

A aproximadamente 3.500 metros de altitude, você vai ter que beber muita água para se aclimatar. Consequentemente, vai ter que ir muitas vezes ao “banheiro”. De início, a timidez faz com que você tenha que andar quase uma maratona para achar uma moita. Mas depois, naturalmente, perde a vergonha e faz xixi próximo ao carro mesmo, sem se importar se alguém está olhando. Mesmo porque não passam muitos carros por aquela região.


Fora os sintomas da altitude, que, fisiologicamente falando, já te fazem mudar, você também aprende a falar palavrões, principalmente porque nem tudo dá certo.


Esqueça o seu melhor visual. Suas roupas de viagem de montanha terão que ser confortáveis. Ainda acho que viajar com o chinelo no pé seja a melhor opção. Porém, a unha feita não durará muito tempo.


Você vai dormir em locais com camas deliciosas e confortáveis, em refúgio de base militar na fronteira (abandonado e sem água, porém protegido do vento e frio) e, na maioria das vezes, em barraca.


O que eu posso falar sobre a barraca? É uma acomodação com duas entradas, uma delas utilizada para montar a cozinha, onde certamente seu guia de montanha vai preparar o melhor jantar liofilizado que você já comeu na vida, com direito a sopa de entrada, macarronada ou estrogonofe no prato principal, seguido de postre (“sobremesa”, em espanhol), que na Argentina certamente será um alfajor. Tudo acompanhado de muito líquido. Geralmente, sucos de diversos sabores: maçã, pomelo, pera, pêssego… Lembre-se de que quanto menos ácido, melhor. Nessa viagem, o chá mate granulado acabou rápido.


A outra entrada da barraca me serviu como saída para as várias idas ao banheiro. Por fim, aceite que sua cama king size e seu lençol de um milhão de fios serão substituídos por um isolante inflável e um saco de dormir de pluma de ganso, uma combinação que te dará aconchego e boas noites de sono. Rapidamente, você se tornará uma especialista na organização da nova casa, ajeitando tudo em seu devido lugar.


Prepare-se para ser despertada na madrugada por uma “voz carinhosa” de que já está atrasada – às 4h30 da madrugada – para se arrumar e seguir rumo ao cume.


VIVA: O primeiro ‘seis mil metros’ a gente nunca esquece


Mas calma. Você também vai dormir de conchinha (ah, e como é gostoso dormir juntinho), porém sem banho quente. Às vezes vai só escovar os dentes no riacho que cheira mal – felizmente, por causa de uma planta. E, dependendo do cansaço, vai simplesmente comer, beber e capotar de sono.


Em alguns momentos, terá uma dorzinha de cabeça, de dente ou de barriga – ou quem sabe no joelho. Gripe, alergia? Esteja preparada para ambas. Seu nariz vai assar de tanto você assoar. Pode aparecer um calo no pé, um arranhão. Ou ganhar uma pele ressecada e um cabelo “maçarocado” devido à poeira.


Por causa da baixa umidade, é normal utilizar um lenço na frente da boca. Não para disfarçar o bafo, mas para evitar que a garganta fique muito irritada por causa da secura.


Aprenderá a dar valor a água e entenderá como uma fonte deste líquido é preciosa – é normal o ser humano valorizar alguma coisa quando sente falta dela.


Vai passar por estradas de terra que são na verdade rodovias nacionais, com ondulações conhecidas como "costelas de vaca", que fazem tremer tudo e soltam os parafusos (do carro e os seus). Vai cruzar estradas rentes a abismos, nas quais só passam um único veículo por vez. E ainda há tanto cascalho que o carro desliza de lado. Aí sua perna amolece e o seu coração quase sai pela boca. Isso faz parte da aventura.


VIAGEM INTERMINÁVEL: Maria e Pedro caem na estrada

VOCÊ PRECISARÁ DE UMA LONGA TRILHA SONORA para embalar esses intermináveis quilômetros. Faça uma boa escolha. É melhor que vocês tenham gostos parecidos, porque certamente escutarão pelo menos três vezes a mesma música.

Entre tantos aspectos citados, no entanto, é a parte romântica que ficará gravada na memória. Serão os momentos em que se chora e sorri juntos. São as vezes em que ele estendeu a mão para te ajudar a chegar ao cume porque acreditou que conseguiriam fazer aquilo em sintonia.


Para mim, também foi inesquecível as paisagens inacreditáveis que vimos e que pareciam uma pintura. A natureza selvagem de Puna, os burros com o olhar tristonho, as lhamas e vicuñas que tentaram acompanhar o carro, o céu cheio de estrelas que jamais pensei que veria, o por do sol perfeito, as estradas no meio do deserto por onde nem pensava em dirigir.


Também tem a superação de cada montanha, o visual fantástico de cada cume e a incrível sensação de paz interior. Quando se está na montanha, você sente a presença de algo grandioso e a insignificância do homem diante de tanta beleza.


Na noite de ano novo, brindamos com uma mini Chandon Rosé, acompanhada por chocolate e cereja. Garanto que foi o suficiente. Não estávamos na romântica Paris, mas pernoitamos em Londres (um pequeno município da província argentina de Catamarca).


O melhor de tudo é valorizar os pequenos e simples acontecimentos e momentos. Conseguir aproveitar cada pedacinho da viagem. Isso é a felicidade.

Tive vontade de ficar em Puna, mas voltei com energias renovadas para encarar outra realidade. No fim, resta a saudade. Mas já tenho novas ideias para nossa próxima aventura romântica."

VIAGEM INTERIOR: A paisagem típica e interminável do norte da Argentina