À prova de fogo

O mountain biker Mário Roma conta como foi participar da Bike Race Across 2006


PAU A PAU: Roma (dir) pedala de Viçosa a Camocim ao lado de Oacy de Oliveira, vice-campeão da prova

Por Mário Roma
Fotos por Andrea Faidiga

Acordei às seis da matina, surpreso ao ver neblina e sentir a temperatura amena. Como era possível o clima estar tão agradável em pleno Nordeste brasileiro? Estávamos a 980 metros de altura, no Parque Nacional Ubajara, umas das últimas reservas de floresta tropical dessa região. Ao chegar à entrada do parque, rostos familiares começaram a surgir, velhos conhecidos do último desafio que havia feito no Nordeste. Não podia negar que estava um tanto apreensivo por encarar o que pessoas de Norte a Sul do Brasil concordavam plenamente: o Bike Race Across é, de longe, a mais dura prova de mountain bike do circuito nacional. Realizada entre os dias 6 e 9 de setembro, seu roteiro tem nada menos do que 430 quilômetros, que atravessam alguns trechos escaldantes cuja temperatura bate fácil na casa dos 47º C. Até onde meu corpo iria agüentar essa aventura infernal, dividida em cinco etapas e quatro dias, repletos de trilhas, serras, asfalto, areal, dunas, poeira, maresia, cachoeiras e sol de rachar?

O relógio marcava 9h quando foi dada a largada da primeira etapa. Pela frente, teria longos 83 quilômetros. A roubada começou logo de cara, nos primeiros mil metros, com uma trilha escorregadia cheia de pedras enormes em que foi preciso carregar a bike no ombro. Apesar do visual lindo da floresta, os competidores ralaram para não se esborrachar na pedreira. Ainda bem que levei comigo minha bicicleta full-suspension, com suspensão na frente e atrás, perfeita para desfrutar um downhill de pedras negras coberto por folhas douradas. Parecia que estava pedalando em um tapete iluminado, que me encheu de emoção. Também nessa primeira etapa, jamais esquecerei da ladeira íngreme de nove quilômetros, daquelas de fazer você sonhar com a famosa camisa de bolinhas vermelhas dada ao melhor escalador do Tour de France… Para muita gente, a saída foi empurrar a magrela morro acima, em um desnível que chegou a 800 metros. Após o sofrimento, seguimos por campos, riachos, sertão e asfalto até Tianguá. Minhas pernas estavam para lá de Bagdá, mas me sentia bem por causa do clima agradável.


NA ESCURIDÃO: Na etapa final, teve até pedal noturno

Era 7 de setembro e a cidade inteira estava em clima de festa. Ver uma apresentação de bumba-meu-boi nos deu ânimo para enfrentar mais 114 quilômetros de Viçosa do Ceará, cidade serrana no interior, até Camocim, no litoral do estado. Logo na saída da cidade, deparamos com uma forte descida, onde os líderes atingiam velocidades entre 45 a 50 km/h. Quando a pirambeira terminou e a paisagem serrana aos poucos foi sendo substituída pelo sertão, começamos enfim a sentir o calor que nos arrebentaria até o final. Ao nos aproximarmos do litoral, o terreno ia se tornando arenoso, dando início aos muitos testes de resistência que viriam pela frente.

Na chegada a Camocim, diante de um mar verde-esmeralda, pus-me a avaliar a prova até ali. Estava em quinto lugar na classificação geral e liderava em minha categoria. Era o momento de planejar que estratégia usar para ter energias suficientes para as três etapas restantes. Dois exemplos de superação arrancaram aplausos do público naquela hora _um competidor com uma prótese na perna e outro de 58 anos mostraram a todos que o mountain bike não tem limites. Esse é o espírito das ultramaratonas, vencer os desafios dia após dia. À noite, durante o briefing da maior etapa do evento, ficamos arrepiados ao pensar nos 133 quilômetros que teríamos de desbravar entre Camocim e Cajueiro da Praia, no litoral do Piauí. A equipe médica avaliou novamente todos os competidores para se certificar de que seu estado de saúde era satisfatório para encarar o terceiro grande trecho. Os doutores-Djs, como os apelidei por estarem sempre ouvindo música eletrônica em suas UTIs móveis, davam a todos uma ótima dose de segurança, além de uma injeção de animação sonora.

Largamos às sete da manhã. Cena à la Saara: três quilômetros de dunas, sem nenhum ponto de referência, exceto por bandeirolas colocadas pela organização para orientar os participantes. Antes de chegar a esse deserto de areia, pedalamos pela praia por quinze quilômetros, cruzando um riacho de água salgada mortal para o funcionamento da bike. Sair do areal foi um alívio, mesmo com punhos e tornozelos em frangalhos depois de tanto tempo empurrando a magrela num terreno fofo. O sol forte que castigava após as 10h testou a capacidade técnica, física e emocional dos atletas. Um extenso e inóspito trecho de caatinga, em que as temperaturas médias ultrapassavam os 40º C, estampou medo no rosto de todos. Cruzei-o junto de meus adversários que estavam em segundo e terceiro lugar, e fomos um ajudando o outro. A força da terra quente tinha transformado rivais em companheiros. Ambos nascidos no Piauí, eles comentavam com humor que, para sair dali, era preciso ser “jumento macho”. Depois de sete horas de pedal, a chegada em Cajueiro da Praia foi celebrada com festa por termos superado mais um desafio.


QUASE LÁ: O último dia passou por Cajueiro da Praia, no Piauí

O último trecho do Bike Race Across foi encerrado no dia 9, no sábado. Para fechar com “chave de ouro”, era dividido em duas etapas _uma diurna, entre Cajueiro da Praia e Luís Correia, e outra noturna, em um circuito do município de Ilha Grande de Santa Izabel, uma das ilhas do Delta do Parnaíba! O percurso diurno, com 71 quilômetros, contou com trechos de muita areia, estradinhas de terra e asfalto. Apesar do sol castigante, conseguimos impor uma média alta, o que ajudou a revigorar nosso lado emocional. A sensação de conquista permitiu que as pernas desgastadas girassem em uma rotação absurda depois de tanto esforço nos últimos dias.

À noite, 25 quilômetros nos aguardavam. Navegar pela trilha com lanternas nas bikes, iluminados por setas e tochas da organização, sob uma lua cheia inacreditável,criou uma atmosfera mágica ao cruzarmos os canais do delta. Nessa mesma noite, aconteceu a entrega dos prêmios e nem o cansaço tirou a vibração dos quebrados atletas que conseguiram finalizar a prova. Minha emoção era enorme, pois consegui chegar em primeiro lugar em minha categoria, a over 40, e sétimo na classificação geral. Dos 430 quilômetros, só oito não foram “pedaláveis”. Em cima da bike, vimos desertos, dunas, praias, serras e cachoeiras, sempre incentivados pelos simpáticos habitantes locais. Durante todo o trajeto, senti-me seguro na navegação, com a bela organização da prova, a estrutura médica e a raça e a coragem de todos os participantes.

Ao fechar meus olhos no avião de volta para casa, em São Paulo, não consegui deixar de pensar em tudo o que passei naqueles dias. Relembrei as pirambas, o calor animal, as paisagens históricas do Nordeste, o bumba-meu-boi… Podem me chamar de maluco, mas já sonho com o Bike Race Across 2007, que promete mais litoral e travessias de barco até Jericoacoara. Mal posso esperar.


(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de outubro de 2006)