Mania nacional

Equipes paraenses enfrentam 200 km de prova na região da Guerrilha do Araguaia


BELO DESAFIO: As equipes tiveram de descer cachoeiras lindas como esta, localizada no povoado de Santa Cruz

Por Cassio Waki
Fotos por Fernanda Preto

A noite quente pedia uma bebida refrescante, mais foi regada a xícaras de café fraco e doce que a conversa trouxe à tona recordações sinistras. “A pessoa nem precisava pertencer à tal guerrilha. O exército topava com um rapaz qualquer e deixava o coitado pelado em cima de um formigueiro até ele falar alguma coisa”, diz, compenetrado, um senhor. “Botavam o sujeito amarrado no famoso pau-de-arara e largavam no meio do mato”, conta outro, acrescentando que “amarravam o cara pelos pés num barco e arrastavam o pobre rio acima”.

Lembranças de um passado negro ainda atormentam a memória de quem vive na região da Serra dos Martírios, cenário nos anos de 1970 da Guerrilha do Araguaia, em que o exército massacrou militantes de esquerda em um dos episódios mais conturbados da ditadura brasileira. Foi nesse mesmo local que aconteceu, entre os dias 22 e 24 de setembro, a última etapa do Try On Kaluanã Amazônia Extrema, em São Geraldo do Araguaia, no sul do Pará.

No total, foram três dias, nos quais sete equipes paraenses e uma de Brasília desbravaram 200 quilômetros, entre trechos de caiaque, técnicas verticais, trekking e mountain bike. Os veteranos brasilienses do quarteto Try On/Oskalunga venceram fácil os atletas do norte _que, mesmo perdendo a competição, provaram que não faltam energia, empolgação e força de vontade nesse pedaço do Brasil para desenvolver ainda mais a corrida de aventura.


A TODA PROVA: Foi preciso garra para vencer os 200 km da corrida

A modalidade chegou ao Norte há pouco menos de cinco anos, em 2001, por influência do Circuito EMA (Expedição Mata Atlântica), quando diversas equipes competiram em plena Floresta Amazônica. Na época, um dos organizadores responsável por todo o levantamento do circuito foi o paraense Murilo Bellesi, que no ano seguinte criou a empresa de aventura Kaluanã Vida ao Ar Livre. Desde então ele promoveu 17 provas, encarando o desafio de popularizar esse esporte no estado.

A Serra dos Martírios fica incrustada na divisa do Pará com Tocantins. Composta de cerca de 60 mil hectares, era antigamente território dos índios Carajás, que talharam 5677 gravuras em pedras da região. Uma delas lembra o martírio de Cristo, evidenciando a influência dos jesuítas nessa tribo. Daí se origina o nome. Durante a Guerrilha do Araguaia, os militares tentaram modificar seu nome, chamando-a de Serra das Andorinhas, devido ao grande número de pássaros. Mas a idéia dos milicos acabou não pegando.

Não faltam histórias hilárias sobre os primórdios da corrida de aventura na região, preservadas nas conversas divertidas dos pioneiros corredores nortistas. “Rapaz, as bicicletas eram de ferro, algumas sem marcha. Suspensão, então, nem pensar. Pegávamos a calça de lycra da irmã, a mochilinha de escola do sobrinho, o tênis surrado do final de semana e íamos para as provas. Para matar a sede, tinha gente que pendurava garrafa pet de dois litros no quadro da bike!”, lembra João Vicente Penha, hoje da equipe Kaiowá. Uns e outros ainda eram obrigados pela esposa a levar uma “quentinha” de frango para não passar fome no meio do mato.

Se em muitos aspectos a corrida de aventura no Norte do país ainda está longe de chegar ao nível das provas que acontecem no Sudeste, hoje a cena se desenvolveu bastante. Há equipamentos mais sofisticados, e as mulheres dos atletas abandonaram as quentinhas pelo gel de carboidrato. Uma coisinha ou outra, é verdade, ainda remete àquela época: no sobe-e-desce de um trecho arenoso da serra, Paulo Júnior, o capitão da equipe Açaí Power /Banco da Amazônia, passa o maior perrengue com sua bike de 18 marchas, sem suspensão e com o freio dianteiro quebrado. “Quanto pesa minha bicicleta? Não quero nem saber para não desanimar!”, brinca.

Oito equipes em uma corrida de aventura é um número pequeno. É de se animar, porém, o fato de um circuito longo como o Kaluanã, composto por três etapas, já durar quatro anos. “A idéia é elevar o nível sempre. Às vezes fica difícil, pois não temos um treinamento específico e é complicado sair do Pará para competir”, conta a educadora física Elina Fádell, 24 anos, que pretende usar seus conhecimentos para elaborar um plano de treinos mais específicos para os atletas, que não contam com assessorias esportivas como em São Paulo ou no Rio.

As dificuldades de se locomover na região também complicam a situação. Só de Belém a São Geraldo do Araguaia levam-se dez horas de ônibus, em estradas em péssimo estado de conservação. Detalhe: problemas mecânicos com o veículo elevaram o tempo de viagem dos atletas em 8 horas. Apesar dos contratempos, a galera manteve o alto astral, tudo em nome do amor pelo esporte.

O organizador Murilo Bellesi não deixa que problemas como esses o impeçam de sonhar, e alto, com uma etapa do circuito mundial realizada na Floresta Amazônica. Não é um projeto fácil. Há certos fatores que ainda impossibilitam esse feito. Dinheiro, claro, é um deles. Não se coloca um monte de atletas no meio de uma floresta sem uma estrutura impecável. Mas os interessados podem ir se preparando uma trip para o norte do país, pois um circuito nacional de corridas longas está para sair do forno em breve no Amapá, Roraima e, obviamente, no Pará.

Ao final do percurso, quatro equipes completaram a prova inteira, composta por 60 quilômetros de caiaque pelo rio Araguaia, 80 quilômetros de trekking e 50 quilômetros de bike, ambos na Serra dos Martírios. Cada modalidade foi disputada em um dia. Ao término de cada etapa, as equipes eram obrigadas a pernoitar em suas barracas, em áreas pré-determinadas pela organização.

Outras três foram desclassificadas, mas fizeram questão de continuar até o fim. É esse o espírito do aventureiro, buscar forças para vencer obstáculos, sejam eles as correntezas do rio Araguaia, temperaturas de mais de 40ºC, bikes sem suspensão ou mesmo as lendas tenebrosas que rondam o lugar.

Mesmo regadas a café fraco e doce, as rodas de conversa do povo local podem hoje não apenas relembrar os fantasmas de quem foi assassinado ali em outras épocas, mas também celebrar a coragem de uns atletas paraenses pra lá de aventureiros.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de dezembro de 2006)