Desafio sobre duas rodas

A quarta edição do Desafio 24h do Ceará reuniu 160 valentes competidores


TÁ DE PARABÉNS: Claudio Clarindo vence o desafio na categoria solo

Por Marilin Novak
Foto por Chagas

Não bastam ter pernas potentes e condicionamento afiado. Para encarar o Desafio 24 Horas de Ciclismo, que aconteceu dia 4 de novembro, no Ceará, é preciso ter garra. Muita garra. Primeiro para suportar uma competição que começa num sábado e só termina domingo. Depois para não “quebrar” sob um sol de rachar e temperaturas batendo na casa dos 35º C. Para piorar a situação, tudo isso em um circuito de 13 quilômetros no qual o vento é tão forte que existe no local uma usina eólica que transforma as rajadas em energia. Por todas essas razões, a competição, realizada há quatro anos no litoral de Aquiraz, a 16 quilômetros de Fortaleza, é considerada por muitos atletas como uma das mais difíceis do país.

Entre os 160 ciclistas, divididos em 44 equipes, brilhou o santista Claudio Clarindo. A categoria solo foi a mais disputada: cada parcial de tempo, medida de três em três horas, apontava um atleta diferente no primeiro lugar, que foi de Diogo Porto, Wagner Comodoro, Nilvio Fecchio e, por último, de Claudio Clarindo. O santista completou 45 voltas, cravando 585 quilômetros no odômetro e se tornando bicampeão na categoria.

Clarindo venceu atletas preparadíssimos, entre os quais o americano Rob Kish, três vezes campeão da lendária Race Across America, a prova inspiradora do Desafio 24h. O recorde ficou com a equipe da Top Level Rancing, que pedalou 871 quilômetros, em 67 voltas, 20 quilômetros a mais do que a distância entre o Rio de Janeiro e Curitiba.

Problemas na bike atrapalharam Kish, que no total teve de ficar 45 minutos parado. Mesmo assim, o atleta de 52 anos conseguiu um glorioso terceiro lugar. Parte de sua performance deve-se à ajuda da mulher, Brenda, que surpreendeu o público pela dedicação ao marido. Enquanto as equipes brasileiras montaram mega-estruturas nas tendas de apoio – com fogão, microondas, geladeira, massagista etc. –, Kish contou apenas com Brenda, algumas ferramentas, comida e água.

A americana permaneceu, durante praticamente todas as 24 horas, parada em frente à área de transição, esperando o marido passar. Nas 40 vezes em que isso aconteceu, lá estava ela, sempre com duas caramanholas estendidas para Kish. Além de Rob, o evento reuniu ciclistas amadores e nomes consagrados como o paranaense Luciano Pagliarini, que vive na Europa e disputou o Tour de France no ano passado, e que aproveitou as férias no Brasil para fazer um “treininho básico” de 24 horas.

Experientes ou não, todos os participantes sofreram para chegar ao final. Suaram em bicas, sentiram as pernas queimarem como poucas vezes na vida e ralaram para manter o equilíbrio em meio a uma ventania inacreditável. Em compensação, pedalaram ao lado de um mar maravilhoso, presenciaram um pôr e um nascer do Sol de arrepiar e puderam acompanhar feras como Clarindo e Kish. E ainda tem gente que não entende por que participar de um desafio desses é uma das experiências mais legais para quem ama o ciclismo.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de dezembro de 2006)