Para o alto e avante

Brasileiros contam a aventura que é escalar o Monte Whitney, mais alto dos EUA


ALVO: O monte Whitney, nosso destino

Por Eliseu Frechou*

Foi difícil escalar o Monte Whitney? Essa é uma das primeiras perguntas que todo mundo me faz. Como experiente guia de escaladas, minha resposta é não. Posso dizer até que a escalada é tranqüila, prazerosa. Mas para poder responder isso, foi preciso preparo, muito preparo. É preciso ser rápido, saber que passará por longos trechos desprotegido, estar ambientado com paredes grandes e também ter um bom senso de orientação, pois serão mais de 500 metros sem “pistas” do caminho a seguir, num verdadeiro labirinto de fendas.

A idéia de nos prepararmos para escalar o ponto mais alto dos Estados Unidos começou ainda no Brasil, quando o Wagner “Guinho” Pahl, montanhista brasileiro, topou a roubada de subir comigo quase 4.500m em dois dias, sem muita aclimatação. Sabíamos que outros brasileiros haviam subido outras faces da montanha, mas, até onde conseguimos pesquisar, a face West Butress ainda não tinha sido conquistada por brasucas.

Partimos com destino primeiro ao Yosemite, parque nacional americano famoso por suas imensas paredes rochosas, para um intensivão em big walls. Logo descobrimos que não estávamos sós: havia um enorme congestionamento de equipes no parque, todas disputando para escalar as rotas mais bacanas.

Passado esta fase de “treinos”, seguimos para a região de Lone Pine, em Sierra Nevada, onde fica o imponente maciço do Monte Whitney. A paisagem do lugar é incrível: conforme fomos subindo, partindo de uma região desértica e quase ao nível do mar para quase 3.000 m, foram aparecendo pinheiros esverdeados. A estradinha para chegar ao parque, onde íamos nos embrenhar no mato, era bem esquisita: havia pedras e blocos soltos prontos para cair e esmagar o carro.


PEDREIRA: Nosso colaborador, Eliseu Frechou, fazendo o que mais gosta

Chegamos no nosso ponto de partida, dentro do parque, devidamente munidos da permissão oficial. O lugar lembra o clima dos campos de altitude do Brasil, onde o frio bate forte após o pôr-do-sol. A ausência de vegetação acima dos 3.800m nos lembra que aquele é um ambiente hostil como poucos que eu tive a oportunidade de visitar. Conseguimos algumas informações básicas sobre o caminho e partimos cedo. Após quase quatro horas de dúvidas, tentando achar o local certo para começar a subir, uma constatação: estávamos no lugar errado! Voltamos tudo e perdemos o dia. Coisas da montanha. Perdemos um dia inteiro camelando feito sherpas, xingamos pacas, mas felizmente encontramos uns figuras que conheciam a montanha e nos mostraram a entrada do North Fork, cânion que dá acesso à face leste do Monte Whitney e por onde deveríamos subir para alcançar a parede.

A parada foi estratégica, pois estávamos já com a cabeça estourando de dor por conta da diferença de pressão atmosférica e o ar rarefeito. Voltamos e procuramos nos aclimatar um pouco mais para baixo. Dormimos na sede do parque e no dia seguinte bem cedo recomeçamos os trabalhos.

Caminhada puxada de quase 7 horas de "toca pra cima". Tirando a falta de ar, chegamos sem grandes problemas Iceberg lake, ponto onde deveríamos montar o bivaque, nosso acampamento improvisado. O lugar era cheio de amontoados de pedra formando barreiras contra o vento, parecia uma pinguineira. Guinho deu uma descansada, enquanto eu dei um rolê pelo lugar para descobrir onde seria o início da rota.


ABRIGO: Topo do monte Whitney

Antes do anoitecer arrumamos o equipamento de escalada e comemos uns raviólis enlatados, que devido à nossa estratégia de subirmos leve (portanto sem fogareiro e panela) teve que ser engolido a frio mesmo – intragável! Conforme foi escurecendo começou a gelar e pressentimos que teríamos um bivaque glacial, a vários graus negativos. Mas mesmo com frio, a noite foi um espetáculo. Pelo buraco de respiração do meu saco de bivaque fiquei contando satélites e estrelas cadentes que caem sem parar. Guinho também ficou espantado com a nitidez deste céu distante da poluição e das luzes das cidades, e passou boa parte da noite curtindo o visual.

Pela manhã faltou coragem para sair do saco de dormir, que mesmo com gelo por dentro, ainda era mais quente que a temperatura externa. A água que havíamos preparado para beber durante a escalada estava congelada nas garrafas e o gelo estava por todas as partes.

Com o nascer do sol, a pressa por fazer a escalada tomou conta de nós. Apressamos os preparativos e já começamos a subir a moraina (pedras soltas que ficam embaixo do monte) em direção à montanha. A primeira enfiada (é assim que chamamos cada trecho percorrido) foi tranqüila, o que nos deixou bastante confiantes em fazer as 11 enfiadas restantes num bom tempo. Nossa idéia era alcançar o topo e ainda descer no mesmo dia, então ligamos o turbo para conseguirmos realizar cada trecho de quase 60 metros num tempo inferior a 30 minutos.

A estratégia para escalar a montanha era carregarmos o mínimo de equipamento possível, pouca água, algumas barras energéticas, para atingir o topo antes das 13h. Assim, poderíamos descer o mais rápido que pudéssemos, pois além de não conhecermos o caminho de descida, não tínhamos mais comida, caso fosse necessário passar mais uma noite na montanha. Teríamos que chegar no carro ainda neste dia.


DUPLA DINÂMICA: Eliseu e Wagner pendurados no El Captain

À medida que subimos, entramos na aresta da montanha, onde é ainda mais frio por conta do vento. O lugar é uma espécie de “fendolândia”, onde encontramos diversas fendas paralelas que dificultaram muito nossa orientação. Isso, mais a inexistência de grampos, e apenas um piton (espécie de prego fixado com auxílio de martelo nas fendas da pedra) em 600 m de parede aumentaram ainda mais a minha responsabilidade como guia. Naquele momento, eu precisava ter um bom senso de direção para não me perder na parede, entrando numa ratoeira sem saída. O ar frio e os quase 4.400m de altitude dificultaram muito a respiração e por diversas vezes tivemos que parar de escalar e respirar mais forte por alguns segundos para recuperar o fôlego.

Chegamos no meio da montanha as 10h30 da manhã. Guinho e eu havíamos combinado que este seria o ponto de parada para uma barra energética, água, filmar as considerações. Quinze minutos de descanso e continuamos tocando, fazendo as paradas nos melhores platôs e seguindo nosso caminho sem deixar rastros – um dos prazeres da escalada tradicional.

Alguns erros e acertos de percurso e, enfim, chegamos ao topo na hora marcada! A emoção foi incrível. Só não foi maior porque eu pensava em descer logo – afinal, subir é apenas a metade do caminho. A escalada só termina no chão.

Um frio de lascar nos colocou no rumo da descida rapidinho. Conseguimos algumas informações da descida com uma equipe americana que encontramos no caminho e foi um alívio quando chegamos novamente ao Iceberg lake às 13h. Pegamos o equipamento de bivaque que havíamos deixado escondido nas pedras (para evitar a curiosidade das vorazes marmotas), e uma vez fechadas as mochilas, iniciamos a trilha non-stop do caminho de volta.

A maratona terminou um pouco antes do anoitecer. Posso dizer que esta experiência alpina foi algo realmente diferente das sensações que senti em outras montanhas. Não pela complexidade e perigo. Mas o Whitney testou nossa rapidez, resistência ao frio e à altitude. Todos estes fatores juntos é que determinaram nossa segurança. Talvez por isso esta escalada fique para sempre gravada em minha memória.

*Eliseu Frechou é guia de montanha há mais de 20 anos e entre outras viagens pela Europa, África e Américas, escalou na Califórnia 7 vezes, onde subiu montanhas como o El Capitan e a Leaning Tower (duas vezes cada), Half Dome (com sua esposa Beth Frechou), Yosemite Falls (sozinho) e diversas outras. É patrocinado pelas marcas SNAKE (snake.com.br) e SOLO (solobr.com). Todas as imagens desta matéria foram feitas com uma câmera digital MIRAGE (mirage.com.br).

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de janeiro de 2007)