Ora pois!

Com um formato diferente, a XPD Race encerrou o calendário português de corrida de aventura


BICHA: Equipe La Fumano cabo da Roca, na costa de Estoril

Por Marilin Novak

Uma aventura bueda fixe pah! As cinqüenta equipes – divididas nos escalões elite mista, masculina e aventura, sempre com três elementos, mais um de assistência – enfrentaram longos trechos de pedestre e BTT. Já nas actividades aquáticas, os corredores foram obrigados a vestir grossos fatos isotérmicos, por causa do frio intenso. Algumas técnicas desportivas especiais, como trikke e manobras de corda, exigiram habilidade ou equipamentos como arnês e pés de gato. A equipa vencedora completou 72 CPs.

Não entendeu nada? Num português bem luso, essa foi a Estoril Portugal XPD Race, uma corrida de aventura que aconteceu pelas bandas do seu Joaquim nos dias 9 e 10 de dezembro, finalizando o calendário 2006 do circuito Portugal Eco Aventura, depois de cinco provas. Como cenário, o Parque Natural Sintra-Cascais e a Costa do Estoril, no sudeste do país, o ponto mais ocidental da Europa continental.

Algumas equipes importantes do circuito mundial, como o americano Paul Romero, da Sole, a espanhola Monica Aguilera, da Abarth, e os brasileiros Rafael Campos e Victor Lopes Teixeira, da Mitsubishi QuasarLontra, tornaram o evento internacional. Esses “gringos”, convidados pela organização, palestraram num curso de formação de 40 novos técnicos de corrida de aventura, uma atividade levada a sério por lá: todos os staffs da prova eram jovens universitários estudantes de ecoturismo. O curso, mais um fórum de discussão, rolou nos três dias anteriores à prova.


TRIKKE: Competidor se aventura com o patinete off-road

A prova em si foi fixe (muito legal), mas casca-grossa! Com longas pernas de pedestre (trekking) e BTT (MTB), o percurso de cerca de 200 quilômetros passou por serras, zonas costeiras e cidadezinhas que guardam a história de uma nação que já foi a mais rica do mundo (sem entrar no mérito da origem da riqueza). O clima maluco, que alternava sol, chuva e um frio de lascar, beirando o zero grau à noite, exigiu bons fatos isotérmicos (roupas de neoprene), item indispensável no trecho de canoagem noturna nas correntezas do Tejo, o principal rio de Portugal. “Usei um neoprene em cima do outro”, diz Vitão.

O clima doido também resultou em duro trabalho para os apoios. “Só de tirar e pôr as coisas no carro, cada vez que o clima mudava, emagreci dois quilos”, conta Ursula, que surprendeu os elementos de assistência (equipes de apoio) das outras equipes pelo excesso de zelo que tinha com a Lontra. “Os apoios de lá são desencanados, não ajudam tanto quanto a gente”, orgulha-se Ursula, que sempre mantinha escondida na manga uma sopinha quente e roupas secas para seus “elementos”.

Se aos nossos ouvidos soa engraçado o vocabulário de um país no qual enfrentar uma fila é pegar uma bicha e camisinha chama durex, as diferentes regras e modalidades da prova agradaram aos forasteiros. A começar pelo downhill animal que eles encararam em cima de um trikke (um patinete com três rodas), as disputas de arco-e-flecha, a prova especial de orientação ou as técnicas verticais, que exigiram o uso de cadeirinha (arnês) e pés de gato, ou melhor, sapatilhas.

Porém, a principal diferença ficou por conta do formato da corrida que, segundo Vitão, foi aprovadíssimo pela QuasarLontra. Funciona assim: a prova é subdividida em dez etapas non-stop. Cada etapa tem um espaço geográfico delimitado e um número de postos de controle, que eles chamam de CP em vez de PC (vai entender!), e um tempo máximo para ser completada Vence a equipe que passar pelo maior número possível de PCs, completando as etapas dentro do tempo e da área estipuladas pela organização.


TRECHO: Escalada

Como cada equipe arma uma estratégia diferente para laçar o maior número de PCs, os vencedores só são conhecidos depois da tabulação dos resultados, no fim da prova – característica que a Lontra esquecia de vez em quando, disparando enlouquecidamente em busca de todos os PCs. “Só se fossemos o coelho Ricochete”, brinca Vitor, recordando o personagem de desenho animado mais rápido do deserto. É exatamente o excesso de postos de controle que dá velocidade à prova, já que os times suam para garantir mais e mais carimbos.

Carimbo não, bip. Outra novidade foram os chips eletrônicos no estilo “big brother”, obrigatórios a todos os atletas. O sistema dispensa staffs nos postos de controle a também funciona como um dedo-duro, já que delata quando integrantes de uma mesma equipe estão a mais de três minutos de distância um do outro. Para piorar um pouco mais a vidas dos elementos, ou seja, dos integrantes da equipe, o mapa só é entregue alguns metros depois da largada. Ou seja, nada de ler a carta e armar a estratégia no sossego do quarto de hotel.

Com todas essas diferenças, a competição foi vencida em 22h19min59s pela Sole na elite masculina, com Monica de apoio do trio Paul, Aurélio Roldan e Petri Forsman, da equipe Finlândia. Na categoria mista, a tupiniquim QuasarLontra chegou em terceiro lugar (22h26min19s), atrás da portuguesa Clube Millenium BCP-1 (24h00min23s) e da campeã francesa Team Sport 2000 Lafuma (23h19min38s). A Lontra, além de Rafael e Vitor, contou com a atleta Tessa Roorda e Ursula Pereira no apoio. Já a categoria aventura, a única onde os atletas podem se revezar com o apoio, teve a equipe Exército Português B campeã.

A Sole completou 72 PCs dos 80 totais e a QuasarLontra, 52. Foi a primeira vez que equipes de fora ganharam uma prova portuguesa, feito que os espanhóis tentam há cinco anos, no desejo de vencer uma prova com ares de regularidade – mas tão dura quanto uma tradicional – que exige, além da força física, uma concentração mental dobrada para optar pelo próximo passo.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de janeiro de 2007)