Nos caminhos de lampião

Veja como foi o Brasil Wild Extreme em São Francisco


BATISMO: Metade dos 232 competidores largou a nado. Eles foram resgatados metros depois pelos parceiros de equipe e seguiram remando 62 km oelo Velho Chico

Por Fernanda Franco

“É UM DOS LOCAIS MAIS INÓSPITOS E HOSTIS à presença do homem no Brasil. Eles vão sentir o sertão de forma extrema”. A declaração do major Nilton Rodrigues Diniz sobre o Raso da Catarina – uma baixada de areia seca de cerca de 30 quilômetros, cercada de caatinga e envolta por paredões de pedra, que serviu de refúgio para Lampião – levou os atletas ao delírio na cerimônia de abertura da Brasil Wild Extreme. Parecia uma espécie de grito de guerra coletivo dos 232 competidores, ansiosos por desbravarem, em até cinco dias, os 626 quilômetros (que depois de cortes virariam 510) de cenários únicos, passando por quatro estados brasileiros: Bahia, Alagoas, Sergipe e Pernambuco.

Pela primeira vez desde a já clássica corrida EMA Amazônia, disputada em 2001, uma prova desse porte foi realizada sem equipes de apoio. As caixas com equipamentos e alimentação seriam encontradas pelos atletas apenas duas vezes ao longo de todo o percurso, e muitos trechos eram em regiões sem água e com pouquíssima presença humana. “Montamos uma prova no estilo expedição para resgatar as origens da corrida de aventura, quando os atletas eram auto-suficientes. Espero que a corrida transcenda o esporte e marque a vida de cada um, para sempre”, comentou Júlio Pieroni, organizador da competição.

A logística de boa parte da prova ficou a cargo do Exército Brasileiro. O major Diniz, da 1a Companhia de Infantaria, tomou a prova como missão, comandando todo o restante do efetivo. Mais de 200 homens trabalharam na checagem de equipamentos obrigatórios dos atletas, no transporte e logística das caixas de suprimentos e bicicletas e, principalmente, na segurança dos competidores nos trechos mais perigosos. Foram montadas estruturas móveis e pontos de apoio com água potável abundante, além de atendimento médico emergencial. Os homens do exército estavam preparados para fazer qualquer resgate dentro da caatinga, se mantendo sempre conectados à central de rádio da prova. Era um grupo treinado para sobreviver sob as duras condições dessa região. “Sabemos que rasgar a caatinga representa uma progressão de apenas 100 metros por hora e ainda deixa a tropa sem condições de combate”, informava o major.

Com largada e chegada em Paulo Afonso, na Bahia, a competição reuniu todas as grandes equipes do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país, além de agregar times do Nordeste por causa da proximidade. No total foram 58 equipes, incluindo uma do Paraguai e outra do Uruguai, que vieram de carro até Paulo Afonso.

Além dos encantos do rio São Francisco – que gera energia elétrica para grande parte do Nordeste e banha algumas das cidades por onde a competição passou – a prova também percorreu algumas regiões que guardam as histórias de Lampião, o Rei do Cangaço, que por vinte anos usou a caatinga como caminho e esconderijo para fugir da volante (a polícia do começo do século 20) e de bandos inimigos. Ninguém andava tão bem e conhecia todos os macetes da mata espinhenta do sertão quanto Lampião. Antes de entrar para o cangaço, o Virgulino Ferreira da Silva ajudava a família fazendo frete de mercadorias em longas viagens de burro pelo sertão, onde conheceu muita gente. Foi um expedicionário, já que durante o cangaço ele e seu bando viveram como nômades por causa das perseguições.

Se a Brasil Wild Extreme tivesse ocorrido pelos idos de 1930, Lampião seria um grande reforço para qualquer equipe, pois era conhecido como um grande estrategista e dono de uma enorme capacidade de improvisação. Ele não deixava rastros. Seu bando andava em fila indiana e o último apagava as pegadas com galhos. E mesmo que sobrassem vestígios, eles confundiam os inimigos porque usavam alpargatas que tinham uma espécie de salto na frente, dando a impressão de que seguiam na direção contrária.


CANGAÇO CONTEMPORÂNEO: Com polainas no lugar das alpargatas de couro e chapéus sombreiros, o bando da SOS entra no Raso

QUEM PARECE TER INCORPORADO um destemido cangaceiro do sertão foi José Roberto Pupo, ou apenas Zé Pupo, capitão da Motorola SOS Mata Atlântica, primeiro lugar na prova de cabo a rabo. Logo no trecho de remo inicial, de 62 quilômetros pelos cânions do São Chico, Zé e seu bando surpreenderam com uma estratégia diferenciada para chegar ao PC 0 (um posto de controle que era virtual e opcional), que lhes garantiu um bônus de 3 horas em tempo.

A SOS ousou tanto no ritmo forte da remada, modalidade que levam vantagem em relação a outras equipes, quanto em deslocar apenas um atleta para pegar o PC0, enquanto a grande maioria das equipes deslocava dois. Mateus, o eleito, não desapontou, mas demorou muito mais do que esperava para localizar o PC. “Foi uma responsabilidade grande achar esse PC sozinho. Fiquei com medo de não achar e do resto da equipe chegar antes de mim no PC2, quebrando a estratégia que tínhamos montado logo no começo da prova. Mas no final deu tudo certo”, comemora aliviado.

A próxima modalidade da prova era um trekking de mais ou menos 15 horas e 66 quilômetros até o PC 4, na cidade de Água Branca, Alagoas. Muitas equipes terminaram o remo no final da madrugada e assim parte dessa caminhada foi feita de dia, revelando a dureza de percorrer o sertão sob um sol que já avisava, logo ao amanhecer, que não daria trégua. Muitas equipes chegaram o ginásio de Água Branca com problemas de insolação e os pés forrados de bolhas, fato que comprometia o restante da prova.

A Selva NSK Kailash, de Márcio Campos, Caco Fonseca, Rose Hoeppner e João Bellini, não se intimidou com a aridez deste trekking. Depois de assinarem o PC 1 em 20o lugar, os paulistas chegaram em Água Branca na terceira colocação, a pouco mais de três horas dos líderes e uma hora atrás da vice QuasarLontra, que corria com Rafael Campos, Rodrigo Martins, Sabrina Magela e Erasmo Cardoso, o Chiquito. A disputa entre essas três primeiras equipes se seguiria até o fim da competição.

Já duas equipes favoritas – a recém-criada paulista Team Xpresso e a brasiliense Oskalunga Sundown Multisports – tiveram problemas físicos, abandonando a disputa depois de partirem de mountain bike de Água Branca, seguidos pelas crianças locais e embalados pela sanfona da banda de forró da cidade. Mais à frente, o cangaceiro contemporâneo Zé Pupo descobria que para chegar a Petrolândia, em Pernambuco, era preciso vencer 35 quilômetros de bike na areia pesada entre os PCs 8 e 9, onde estava a caixa de equipamentos.

Sem saber o que encontraria, Zé previu cerca de duas horas para o trecho, levando água apenas para isso. Mas, a SOS chegou a Petrolândia seis horas depois do planejado. “Foi o pedal mais quente da minha vida. Cheguei a esquecer que estava competindo e só pensava em sobreviver”, desabafou, ainda exausto. Márcio Campos, capitão da Selva, compara com o deserto, onde já correu: “Nem em Abu Dhabi [Emirados Árabes] passamos tanto calor. Essa prova não tem grandes altitudes, mas é a mais dura que já fiz por causa do terreno, clima e distâncias”. Era tanto perrengue que no terceiro dia de prova a organização já contabilizava 18 horas de atraso em relação às previsões. Júlio então tomou a decisão de reduzir o percurso em aproximadamente 100 quilômetros, cortando os próximos trechos de remo e bike pela metade.

As XX equipes que ainda restavam na prova saíram remando de Petrolânida até um PC virtual, localizado no teto de uma igreja parcialmente submersa por causa da construção de uma barragem, que inundou uma área onde anteriormente era a cidade. Eram 35 quilômetros em cima da região que ficou imortalizada pela música de Sá e Guarabyra que diz “o sertão vai virar mar”, inspirada nestas terras alagadas em 1988. Um forte vento agitou as água, chegando a formar ondas de até 1 metro. A SOS surfou algumas. Já Caco e João, da Selva, ficaram mareados e ao se debruçarem no barco para aliviar o enjôo, viraram com todos os equipamentos.


ALÍVIO: Pedalar em terra batida, como nesta foto, era raridade. Em alguns trechos de areia, os atletas levaram 8 horas para percorrer meros 35 km

O TÃO ESPERADO RASO DA CATARINA só foi percorrido por nove equipes, que completaram a prova sem nenhum corte. Com fundo de areia e seixos (um tipo de pedra), o lugar passa a impressão de que um rio já correu em seu veio, mas não guarda uma só gota de água. Quem domina a caatinga, sabe que só é possível matar a sede comendo o caule suculento do xique-xique, um tipo de cacto que cresce ali e que exige cuidado ao ser aberto devido a enormes e afiadíssimos espinhos. O talo do meio, amargo, deve ser evitado.

O raso também guarda outras plantas urtigantes, como o cansanção. Eu mesma descobri que esta planta, repleta de espinhos muito finos, inclusive nas folhas, provoca uma sensação de ardor e coceira ao menor contato com a pele ou mesmo por cima da roupa – um incômodo que perduraria por no mínimo mais uma semana.

Preparados para a última batalha, Zé “Virgulino” Pupo, Shubi “Dadá” Guimarães – a mulher forte do bando e braço direito de Lampião que dominava as armas e conhecia os planos do líder – Mateus “Corisco” Ferraz e Fábio “Mergulhão” Batista partiram para a vitória e para o Raso, adaptando as vestimentas originais do cangaço. Trocaram o chapéu de couro pelo sombreiro e as alpargatas por polainas que protegiam os pés da entrada de areia. Com cerca de quatro litros de água cada um, o quarteto se despediu dos militares com a garantia de que, se precisasse, teria apoio. Mas era impossível não temer o raso depois dos avisos do major Nilton.

Porém, vencer os paredões de pedra do cânion do raso foi mais fácil do que esperavam, afinal dessa vez eles estavam bem preparados. O pior viria na sequência, uma estrada arenosa e monótona de 25 quilômetros, cercada pela caatinga fechada nos dois lados. Mas não havia mais como perder a liderança. Era só pedalar até as técnicas verticais, já de volta às imediações de Paulo Afonso, e de lá para a chegada. A Selva ainda tentou buscar a SOS no cânion, mas não havia tempo hábil. Já a QuasarLontra chegou em terceiro.

Além das experiências no raso, cada atleta poderia descrever de uma forma bem particular sua passagem no sertão. Por exemplo, com a imagem da fila indiana de mais de 100 caiaques percorrendo as águas verde-esmeralda do São Francisco. Ou com o lado hospitaleiro do sertanejo – um povo que oferece ao visitante tudo o que tem e o que não tem para a próxima refeição, e ainda se desculpa por não ter mais. Um povo que se dispõe a cozinhar um bode fresquinho, um dos hábitos alimentares mais marcantes do sertão brasileiro, ou se recusa a cobrar o saco de umbu que aliviou a sede dos atletas. Assim como previa Júlio, a prova deixou marcas inesquecíveis em cada atleta, e não estou falando das bolhas nos pés ou coceiras de urtiga.


(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de maio de 2008)