Este é o meu templo

Um encontro de fé no Mont Blanc


EXPECTATIVA: Corredores da prova de 98 quilômetros aguardam a sirene de largada na praça de Courmayer, na Itália

Por Andréa Estevam

ESTÁVAMOS EM ALGUM PONTO DO MACIÇO DO MONT BLANC, subindo pesarosamente uma das trilhas que circundam a montanha-mãe da Europa. Era a quinta das seis subidas descomunais, entre tantas outras menores, que formam a Ultra Trail Du Mont Blanc (UTMB), uma das provas de endurance mais respeitadas, prestigiadas e temidas (em doses iguais) do mundo.

Olho pra cima enquanto apóio os braços nos bastões de caminhada, preparando-me para içar meu corpo para mais um degrau de pedra, e o que vejo deixa minhas pernas ainda mais bambas: uma linha de luzes brancas ziguezagueia montanha acima, cada uma delas presa à cabeça de um dos competidores que enfrentam a noite à minha frente. Procuro o fim da montanha, mas não acho – as luzes parecem subir, subir infinitamente. Demorou um pouco até que meus olhos distinguissem as nuances de preto e eu percebesse que, no breu total daquela noite, as luzes mais altas não eram lanternas, mas sim estrelas. “Que bonito”, pensei, sorrindo. E me icei novamente, minhas pernas seguindo meu tronco num transe induzido por fadiga e carboidratos.

Fazia cerca de 16 horas que eu e outros 2.032 corredores havíamos largado de Courmayer, uma cidadezinha medieval na Itália, do lado do túnel do Mont Blanc. Depois de correr em solo italiano, estávamos agora em trilhas suíças, e prestes a entrar em terreno francês. Éramos os competidores da versão “light” da UTMB, a CCC (Courmayer-Champex-Chamonix), com “apenas” 98 quilômetros e “meros” 5.600 metros de desnível positivo (tradução: 5.600 metros de pirambas) – o que equivale a correr de Bertioga a São Paulo, subindo sete vezes a serra do Mar no caminho. E isso tem que ser feito em no máximo 26 horas. Já a versão longa da UTMB tem 166 quilômetros de percurso, 11.200 metros de desnível e 46 horas de tempo-limite. Ela larga de Chamonix, percorre 66 quilômetros pelos Alpes antes de passar por Courmayer e então seguir as mesmas trilhas da CCC. Mas, para encarar essa pedreira, é preciso antes ter completado a CCC ou alguma das ultramaratonas que a organização lista como qualificatórias. Mesmo com toda essas dificuldades, o trajeto longo desta 6a edição da UTMB teve 2.377 competidores (173 deles, mulheres).

Haja criatividade e paciência para treinar para uma prova de montanha nos Alpes quando se mora em São Paulo. Competi em corridas de aventura por sete anos, até 2007, e corri a Jungle Marathon (250 quilômetros, em etapas) em 2005. Tenho uma boa base e sempre mantive um ritmo constante de treino – o que não elimina o fato de eu ser uma noviça em ultras. Então, nos dois meses que tive para me preparar para o Mont Blanc, minha treinadora, Cristina de Carvalho, substituiu meus treinos de bike por corrida: passei a correr cinco vezes por semana, com meus treinos longos crescendo de 1h15 até 2h10. Uma vez por semana, eu encarava mais de uma hora naquelas máquinas de academia que simulam escadas (ainda bem que era época de Olimpíadas e as reprises dos jogos faziam o tempo passar mais rápido). Duas vezes por semana, eu dava tudo de mim nos treinos de funcional, ministrados pelo Marcos Maitrejean. “Pernas biônicas”, eu pedi a ele. E depois agüentei sem reclamar as centenas de exercícios pliométricos e de força a que ele me submeteu.

Zerei a planilha e embarquei me sentindo forte e preparada – pelo menos, o tanto quanto eu poderia estar com o tempo e as condições de treino que tive, e sem considerar os elementos imponderáveis: eu não sabia como meu corpo ia reagir ao frio, à altitude e ao desnível alpino. Será que eu realmente estava pronta?


SORRISO AMARELO: A autora, tentando manter a pose apesar do cansaço. Repare no "uniforme": bastões de caminhada e meias de compressão era unanimidade entre os competidores – e realmente funcionam

NAS PRIMEIRAS CINCO HORAS DE PROVA, minha resposta foi “sim”. Larguei de Courmayer, a 1.200 metros, chorando. Pode parecer piegas, mas estar ali já era para mim uma grande realização – acreditei que conseguiria, treinei com disciplina, ralei para poder me ausentar do trabalho. Para fechar o nó na garganta, a cidadezinha era linda e toda a população nos aplaudia nas ruas. Pensei em como os ciclistas do Tour de France deviam se sentir. Comecei mais pro fim do bolo de corredores e fui passando um monte de gente nos primeiros quilômetros. Entrei na primeira subida, que ia até o Tête de La Tronche (primeira lição de francês: tema qualquer subida batizada de “tête”, ou “teta”), a 2.584 metros, me sentindo superbem.

Eu tinha estabelecido como missão terminar a prova em 23 horas, e levava comigo uma “cola” com os tempos parciais que eu precisava fazer a cada posto de controle. Cheguei ao bico da teta quase meia hora antes do que minha cola me pedia. O Mont Blanc seguia comigo, sempre ao meu lado na trilha. As paisagens de pedra, relva e neve se mostravam como num arquivo de Photoshop – só que era tudo real e maior que qualquer lente fotográfica poderia captar. Outro nó na garganta e novas lágrimas, impossíveis de conter ali e em outros pontos do trajeto.

Doida de endorfina e de ar puro, pensei “tenho pernas biônicas!” e despenquei alucinada morro abaixo, saltando sobre pedras e rios sem pensar nos 83 quilômetros que ainda me esperavam. No fim da descida, minhas coxas tinham se tornado bem humanas e mortais – mas ainda davam pro gasto. Iniciei ali uma relação de amizade com as dores que começaram a viajar pelo meu corpo: “Olha só, você de novo, dorzinha no tendão de Aquiles!”. Ou, então, “O tendão passou, agora o que dói é o ligamento do meu joelho… que interessante!”. A brincadeira perdeu a graça quando meu ritmo foi desacelerando. O coração e o pulmão estavam fortes, e as coxas, apesar de não biônicas, seguiam firmes em sua missão. Mas, depois de seis horas de corrida forçando o ritmo, todos os elos frágeis – tendões, ligamentos e articulações – estavam querendo me deixar na mão. Depois de nove horas, eu já estava 15 minutos atrás do meu objetivo. Depois de outras seis, às 2 da manhã, eu me arrastava pela trilha, usando os bastões como muletas, e estava quase uma hora acima da minha previsão.

O fantasma do “não terminei” começou a me assombrar. Naquele ritmo, eu não passaria no próximo horário de corte, e tudo estaria perdido. A UTMB é uma prova de corrida, e não de trekking: se você andar muito, não consegue cumprir os tempos-limite. É preciso pelo menos trotar nas descidas e nos planos, e andar firme nas subidas, para ter a chance de chegar ao final. Pensei com mais força ainda nos amigos que acreditaram em mim e me ajudaram a treinar. E nos amigos que me emprestaram equipamentos, e que se reuniram antes de minha vinda para me desejar boa sorte. Lembrei dos dois meses de vida de “atleta de Cristo” que eu levara antes de embarcar para a França. O corpo moído, o cansaço. E decretei: “Termino esta joça nem que seja engatinhando”.

Aqui chegamos ao ponto do início deste relato: a subida cruel que terminava nas estrelas. O sorriso. E o momento em que eu deixei a teimosia de lado e finalmente decidi tomar um analgésico para calar a boca das “amiguinhas” nada gente fina que vinham me acompanhando havia horas, falando cada vez mais alto. Cheguei ao fim daquela subida – ah, era a penúltima! – e lá em cima tinha um dos postos de abastecimento que pontilhavam o percurso. Alguns, como aquele em que eu acabara de chegar, ofereciam só bebidas (água, refrigerante) e sopa quentinha. Outros espalhavam pães, frios, macarrão, biscoitos, chocolates e frutas em longas mesas. Nós, competidores, tínhamos que carregar apenas alguns géis e barras de carboidrato para os intervalos entre os postos de comida, e isotônico em pó para misturar na água que era fornecida.

Eram quase 5 da manhã e o frio estava punk. Não dava pra ficar parada. Dei uns goles na sopa e saí andando, pensando que a cada passo eu estava mais perto da linha de chegada.


QUERO VER VOCÊ NÃO CHORAR: A cada curva, uma dessas paisagens se abria para renovar a fé dos ultramaratonistas

POR UMA FELIZ COINCIDÊNCIA, o analgésico foi fazendo efeito quase que ao mesmo tempo em que o dia clareava, ressuscitando minhas pernas e minha alma. As paisagens do Mont Blanc acordavam junto com meus músculos, desprendendo de si um vapor que dava a tudo um aspecto de O Senhor dos Anéis. Nessa paisagem, conheci um grupo de quatro italianos muito comédia, com quem eu consegui ter uma comunicação mínima. Cerca de 70% dos competidores são franceses e fazem jus à fama de não serem muito dispostos a conversar em qualquer língua que não a própria. Por isso, passei a maior parte do tempo sozinha (mas sem solidão) e em silêncio, apesar de ter sempre outros corredores por perto. Mas, era bom ter os italianos por perto e, mesmo sem entender tudo o que eles falavam, me divertir de ouvi-los conversar entre eles.

E assim, com sol e novos amigos, começou minha recuperação. Depois de ter ficado duas horas acima do meu objetivo e perigosamente perto dos cortes intermediários, recuperei a fé e voltei a acelerar. Cheguei ao fim da derradeira piramba, a Tête Aux Vents, uma hora depois do horário que minha cola me pedia. Essa subida, aliás, é novidade na prova – só passou a fazer parte do percurso neste ano – e foi o trecho mais cruel de toda a corrida: 900 e tantos metros de desnível depois de já termos corrido, trotado, andado e nos arrastado por mais de 80 quilômetros. A montanha é toda de pedra, então éramos obrigados a levantar muito a perna para subir os boulders. O sol já castigava (apesar de estarmos nos Alpes, durante o dia fez muito calor) e se refletia nas pedras, esquentando da sola dos pés à tampa da cabeça. Se subir essa última teta foi duro, descer foi simplesmente um pesadelo. Com joelhos e coxas destruídos, cada passo pedras abaixo era um suplício. A dor estava estampada no rosto de todos com quem cruzei naquele downhill. Na minha também, provavelmente. Só que, tal como uma maquiagem de má qualidade, por baixo dela transparecia um teimosa determinação.

Cheguei ao último posto de controle ainda uma hora “atrasada”. Faltavam 7 quilômetros de descida até a linha de chegada em Chamonix e tudo que me esperava depois dela: a Coca-Cola gelada, a comemoração, o alívio, o banho, o descanso. E aí o mais forte dos analgésicos fez efeito: a emoção. Corri esses últimos quilômetros como se estivesse começando um treino forte, abrindo as passadas e ouvindo, cada vez mais perto, os sinos que foram a trilha sonora da prova. Ou eles balançavam nos pescoços do gado, ou eram chacoalhados pelos moradores das pequenas vilas por que passamos, para celebrar a chegada dos competidores.

Ultrapassei umas dez mulheres nesse trecho e cruzei o pórtico depois de 23h37 minutos. Fui recepcionada por um senhor simpático, que ganhou, meio espantado, um grande abraço meu. Única representante brasileira na corrida deste ano e primeira brasileira a completar a Ultra Trail du Mont Blanc, eu não tinha amigos me esperando na chegada – mas ao mesmo tempo tive meus amigos comigo durante toda a prova. Segundos depois de eu sentar na calçada (a primeira boa sentada em 23 horas), me perguntaram se eu voltaria no ano que vem para o percurso longo. A resposta veio do coração e surpreendeu até a mim: “Claro”.

TURMA INTERESSANTE ESSA DOS ULTRAMARATONISTAS. Dava para discerni-los de longe em Chamonix. Na estação de trem, eram os que desciam dos vagões carregando bastões de caminhada (90% dos competidores da UTMB usam esse equipamento). Nas ruas da cidade, eram os que antes da prova vestiam roupas da The North Face e carregavam garrafas d’água embaixo do braço (ei, eu também carregava a minha!), usando bermudas que mostravam as pernas depiladas e as panturrilhas infladas, desproporcionais, com veias que mais parecem oleodutos de sangue. Rugas de sol no rosto, mochilas inseparáveis nas costas (mesmo para ir jantar) e uma expressão meio enlouquecida também compunham o “kit corredor”. Depois da prova, eles trocavam a água pelo vinho. Os que podiam – e foram exatamente 54% dos corredores que largaram para os 166 quilômetros e 65% dos que correram a prova de 98 quilômetros – vestiam, orgulhosos, o colete de “Finisher”. Eu não queria tirar o meu.

Mas, curiosamente, os campeões da UTMB geralmente fogem do estereótipo “pernas bombadas e cara de mau”. A inglesa Elizabeth Hawker, 32 anos, venceu o trajeto longo em 25h19min41s. Ela é o que chamamos de talento nato: morava numa barraca nos pés do Mont Blanc e nem sabia que podia correr tanto, até que em 2005 entrou numa ultra por insistência dos amigos – e ganhou. Hoje ela é bicampeã da UTMB e detém o recorde da maratona Katmandu-Everest, tendo sido ouro no Mundial dos 100 quilômetros em 2006. Entre os homens, o espanhol Kilian Jornet fechou os 166 quilômetros em 20h56min59s – uma hora mais rápido que o segundo colocado, o nepalês Dashhiri Dawa Sherpa. Kilian cresceu nos Pirineus, começou a esquiar ao mesmo tempo em que aprendia a andar. No verão, a diversão dele e da irmã era brincar de pega-pega nas montanhas. Aos 13 anos, ele começou a competir em provas de esqui cross-country e de travessias de esqui, modalidade que ele só deixou de lado quando resolveu se dedicar às corridas em trilhas, em 2006. Morando e treinando a 2.000 metros, com neve e trilhas na porta de casa, neste ano o espanhol magricelo desbancou a hegemonia do italiano Marco Olmo (60 anos, campeão em 2006 e 2007) na UTMB e sagrou-se campeão europeu e mundial de corridas de montanha.

Nos 98 quilômetros da CCC, o homem mais rápido (o francês Guillaume Le Normand) fechou o trajeto em 12h26min04s, enquanto a inglesa Lucy Colquhoun, da Team Vasque, chegou depois de 14h20min. E eu? Fiquei num honroso 83o lugar entre as 287 mulheres que largaram, ou 794o lugar na classificação geral, entre os 2.032 competidores – um resultado ótimo para quem saiu do Brasil sem saber se conseguiria ao menos terminar a prova. O que trago de lá (além do meu supermegamaster colete de “Finisher”, hehe) são lembranças de uma pequena vida condensada em 23 horas: um intervalo curto de força, frio, solidão, fraqueza, dor, dúvida e alegria agudos, em que me emocionei com a natureza e descobri em mim reservas físicas e mentais intocadas, e uma renovada fé em mim mesma. Mas o que ganhei de mais importante no maciço do Mont Blanc foi a certeza de que corrida em trilha é realmente algo que toca minha essência, e me dá uma liberdade e um prazer que compensam quaisquer dores e sacrifícios. Cruzar single tracks no mato, em vales ou em montanhas me regenera, me alegra e me cura. Essa é a minha igreja. De volta ao Brasil, sonhei mais de uma vez que estava correndo por trilhas lindas, leve como só nos sonhos bons conseguimos ser. Em todas as vezes, acordei feliz, calcei os tênis e saí para meu culto, já pensando em qual será meu próximo encontro com Deus.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de outubro de 2008)