Gente que faz

Mário Lacerda conta como foi criar a maior ultramaratona do Brasil


SIMPLES: Não é difícil tirar um sorriso de Mário Lacerda

Por Gustavo Ceratti
Fotos por Alexandre Cappi

QUANDO MÁRIO LACERDA avistou os primeiros atletas se aproximando da linha de chegada da Brazil 135, no dia 23 de janeiro, na serra da Mantiqueira (SP), seu sorriso era de puro orgulho. Também pudera: pelo sexto ano consecutivo, este pernambucano de 53 anos conseguiu realizar com sucesso a maior ultramaratona do país. Os números da prova já fazem desta uma história surpreendente – são 217 quilômetros (135 milhas, daí seu nome) percorridos em até 60 horas, em um cansativo trajeto que totaliza mais de 10 quilômetros de subida e 9 quilômetros de descida acumuladas. Mas é a trajetória do homem por trás da competição que mais causa espanto a quem não a conhece: oficial da reserva da Marinha, Lacerda começou a correr há apenas seis anos. Antes disso, não se envolvia muito com esportes, a não ser por suas peregrinações por caminhos como os de Santiago de Compostela, na Espanha, mais com o objetivo de se autoconhecer do que superar limites físicos. Até que um dia viu na televisão a norte-americana Pamela Reed dando tudo de si para completar a Badwater, uma das ultramaratonas mais difíceis do planeta, disputada no vale da Morte, nos Estados Unidos. Decidiu ali que queria fazer o mesmo. Mandou seu currículo de peregrino para os organizadores (só participa quem é convidado) e acabou sendo um dos 100 selecionados em meio a 3.000 pessoas.

Em 2005, não conseguiu completar a prova – seu tênis “derreteu” nos primeiros 50 quilômetros do percurso e duas bolhas gigantes o impediram de continuar. Mas no ano seguinte lá estava ele, firme e forte, entre os finalistas, após meses de preparação intensa com um técnico de corrida. Foi um período exaustivo, de longos treinos e muita reflexão sobre a vida. Ficou tão empolgado que tatuou a altimetria da prova na panturrilha esquerda. “Ao concluir a Badwater, sofri uma transformação tão grande que senti a necessidade de marcar isso de alguma forma no corpo. Escolhi a perna mais fraca para me lembrar que é preciso estar sempre em transformação, vencendo”, diz.

Em sua volta ao Brasil após alguns anos morando no exterior, Lacerda encasquetou que tentaria realizar por aqui uma versão da Badwater. Escolheu o trecho mais difícil do Caminho da Fé, entre as cidades de São João da Boa Vista (SP) e Paraisópolis (MG). Mesmo sem contar com patrocinadores, ele conseguiu incluir o país no calendário das ultramaratonas internacionais – hoje a prova integra as etapas da Badwater World Cup, da qual também fazem parte a Europe 135, realizada na Alemanha, e a Arrowhead 135, nos EUA. Seu próximo desafio? Encontrar tempo para completar a BR 135 ao lado dos outros participantes.

GO OUTSIDE Como foi a Brazil 135 deste ano?

MÁRIO LACERDA Foi excelente. A gente se preparou para as fortes chuvas que caem no começo do ano na região, mas felizmente o sol apareceu e tudo ficou mais fácil. Foi uma corrida quente e seca. A grande novidade foi um grupo de norte-americanos que veio fazer o Caminho da Fé e inseriu a BR135 no meio da peregrinação. Foi muito bonito entregar as medalhas para eles. O vencedor foi o alemão naturalizado costa-riquenho Kurt Lindermuller [com o tempo de 28h19s].


E o nível dos participantes? Vieram muitos atletas de outros países?

Em 2011 o nível melhorou em relação aos anos anteriores. Principalmente porque 60% deles eram veteranos de outras edições. Temos em média 15 atletas estrangeiros por prova, e neste ano participaram atletas da Argentina, Inglaterra, Canadá, Alemanha, Costa Rica, Finlândia, México, Espanha, entre outros. Dentre os nomes mais conhecidos, destaco Agnaldo Sampaio, Adão Miranda e Marcos Farinazzo, além de Lindermuller.


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Qual o maior susto que vocês já tiveram nestas seis edições da prova?

Sem dúvida foi em 2009, quando o ultramaratonista inglês Gary Johnson teve de ser hospitalizado por causa de insuficiência renal após finalizar a prova. Ele ficou dez dias internado em São José dos Campos, em São Paulo, e os médicos chegaram a cogitar a retirada de um dos rins dele. Foi a pior experiência que tivemos, porque somos extremamente rigorosos com a saúde dos participantes. Os atletas são submetidos a exames de urina ao longo da prova e, se ela estiver escura, os obrigamos a descansar por duas horas. Além disso, pesamos eles na largada e nos pontos de controle. Mas, mesmo nesse episódio, nunca pensei que tudo pudesse dar errado. Em minhas experiências na Marinha e como peregrino, fui treinado para contornar situações difíceis. Aprendi que sempre há uma saída.

Você não tem patrocinador. Como consegue organizar a prova?

Hoje a BR 135 se auto-sustenta. Sabemos exatamente quanto dinheiro vamos conseguir com as inscrições e, a partir disso, nos organizamos para gastar somente o necessário – e sempre sobra grana para doarmos para instituições que cuidam de causas como a prostituição infantil, entre outras. Já tirei dinheiro do meu próprio bolso para realizar a prova e, nas três primeiras edições, tivemos prejuízo. A de 2006 foi bancada por mim e só participaram 15 atletas, todos convidados. No ano seguinte, consegui dividir os gastos com uma empresa que nos apoiou, mas a partir de 2008 o evento deixou de ser patrocinado. Tenho dificuldade em lidar e entender as exigências dos patrocinadores. Ganhamos experiência ao longo dos anos, e o desafio da grana felizmente já foi contornado. Claro que não é fácil organizar uma prova apenas com a verba das inscrições, mas temos conseguido nos virar e vamos continuar assim.

Você hoje vive só das rendas da prova?

Não. A Brazil 135 é uma prova sem fins lucrativos, e o dinheiro que sobra é doado a instituições de caridade. Eu sou inventor e trabalho com patentes industriais, em Resende, no Rio.


O que mudou na Brasil 135 desde que ela foi criada?

Uma mudança importante foi o número de participantes. Percebemos que o Brasil não tem atletas suficientes para, como nos Estados Unidos, abrirmos 100 vagas para ultramaratonistas, por isso baixamos o número para 60. Quanto ao formato, pouca coisa mudou. O trajeto é praticamente o mesmo, com pequenas alterações. A grande diferença está na quantidade de solicitações que passamos a receber: em 2007, ano que a prova abriu inscrições para atletas interessados, recebemos 70 solicitações, 25 atletas foram aceitos e apenas 18 largaram. Em 2011, recebemos 630 solicitações, quase 200 a mais do que no ano passado, e 60 corredores foram selecionados.


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Qual a maior dificuldade em organizar uma ultramaratona no Brasil?

Garantir a segurança dos atletas ao longo dos 217 quilômetros de prova. Foi muito difícil encontrar um trecho tão longo e seguro no Brasil. Pesquisei de norte a sul em busca de um local e percebi que só uma estrutura de peregrinação poderia dar conta do recado. É um trajeto com todas as características de uma prova de endurance, com subidas rigorosas e relevo montanhoso.

Foi em nome da fé que você percorreu tantos caminhos, como o de Santiago de Compostela?

Percorri tantos caminhos porque acreditava que eu tinha que passar por um processo de transformação. Sempre tive uma vida normal, com problemas normais, mas me deixei afetar por um período de grande estresse. Após um desentendimento com minha mulher, ela me disse: “Chegou a hora de você tirar um período sabático. Vá caminhar, vá para Santiago”. Foi aí que virei um peregrino. No Brasil, percorri o Caminho do Sol, da Fé, da Luz, das Missões, os Passos de Anchieta… Hoje minha necessidade já não é mais a de peregrinar, mas de participar de corridas. Me transformei em um peregrino corredor.

Teremos novidades na prova em 2012?

O tempo limite para completar o percurso passará de 60 para 48 horas. Teremos ainda uma nova tecnologia que vai identificar todos os atletas em um mapa, em tempo real, por meio de um dispositivo conectado a um satélite. Os internautas poderão acompanhar cada passo dado pelos competidores.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de março de 2011)