Explore as belezas amazônicas do Parque Estadual do Cristalino

Por Eduardo Petta

Junho. O sol é de rachar. Nuvens brancas imutáveis parecem fixadas no céu azul. Não chove nem com reza brava. Tempo de seca no sul da Amazônia. O rio Cristalino retrai suas águas negras, porém transparentes. Surgem nas margens pequenas praias de areia fofa. Época perfeita para se conhecer as belezas do Parque Estadual do Cristalino, santuário da vida selvagem encravado no coração da Serra do Cachimbo, uma das maiores reservas de floresta amazônica do extremo norte do Mato Grosso.

Foi para proteger a bacia do rio e sua rica biodiversidade que o parque surgiu, em 2000. “Criá-lo revelou-se uma batalha”, diz Vitória Da Riva, proprietária do hotel Cristalino Jungle Lodge e presidente da Fundação Ecológica Cristalino, entidade ambientalista fundada em 1999 para defender os interesses do parque. Na contramão dos predadores da selva, como madeireiros, produtores de soja e pecuaristas que habitam a região, Vitória investe no ecoturismo e apóia pesquisas científicas. O Projeto Flora Cristalino, por exemplo, classificou 1.200 espécies de plantas em 2008, três delas novas para a ciência, e desenvolve programas de conscientização ambiental.

A grande estrela e o fio condutor para as belezas do parque é, sem dúvida, o Cristalino. Rio estreito para os padrões amazônicos, não mais que cem metros separam suas margens, com vários pontos convidativos para banho. Nas viagens ao longo de suas águas, pode-se chegar até o começo de diversas trilhas, que são bem sinalizadas e podem ser autoguiadas, apesar de a presença dos guias locais garantir mais informação sobre a fauna e flora locais. A seguir algumas dicas de programas outdoor bacanas para se fazer por lá.

TESOURO: Araçari-castanho, que pode ser visto durante passeios pelo Cristalino

DIA 1: Pernoite numa casa na árvore

Nos 30 quilômetros de trilha abertos dentro da reserva do Cristalino, o que mais impressiona é a vegetação com árvores beirando os 50 metros de altura e que cobrem o céu. No primeiro dia, fizemos a Trilha da Castanheira, de nível fácil, bem aberta e definida. Andamos em um espaço plano por uma hora até chegar à base de uma árvore que os biólogos afirmam ter mais de 500 anos. Foi preciso sete pessoas do grupo para abraçá-la. É uma boa trilha para você se adaptar ao calor úmido dessa parte da floresta e aprender a andar sem tropeçar nas raízes. Depois do trekking, volte para almoçar no Lodge, tire uma siesta, mergulhe no rio e, assim que o calor baixar um pouco, encare mais 10 quilômetros de trilhas, emendando a da Figueira, do Cajá, do Cacau, das Rochas e da Taboca. Depois, tome um banho relaxante, curta o jantar e, à noite, experimente a Trilha do Saleiro (de uma hora) para vivenciar a experiência de dormir numa casa suspensa entre as árvores.

DIA 2: Acampar na torre

Outra experiência transcendental é dormir em uma torre de ferro estaiada de 50 metros de altura. A torre foi presente do pesquisador norte-americano de pássaros Chip Haven, professor da Universidade de Stanford, que após se encantar com a região doou ao Brasil o imponente presente. “Percorri todos os principais pontos de ornitologia dos países amazônicos. Nada se compara ao Cristalino”, diz Chip. “Aqui estão 570 das pouco mais de duas mil espécies de aves brasileiras catalogadas.”

 

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A torre tem três patamares para se alcançar os diferentes estratos da floresta e observar os animais. Subir seus 228 degraus não é moleza, mesmo porque depois dos 30 metros ela balança, mas não cai. Descer é ainda pior, pelo (des)equilíbrio do corpo na escada – melhor descer de costas. No alto da torre, acima da copa das árvores, em uma plataforma de três metros quadrados, avista-se, além de centenas de pássaros, algo raro por aqui: amplidão de horizontes. Inesquecível, com o sol nascendo e o tráfego dos macacos fazendo algazarra; lindo, com o sol se pondo e os primatas se aninhando para nanar; desaconselhável, com o sol a pino, a derreter miolos. O ideal é jantar no hotel e depois fazer a trilha para a torre (que leva cerca de meia hora). É uma dádiva passar a noite acampado ali. Mas leve agasalho, cobertores e um bom isolante térmico. Faz muito, mas muito frio durante a madrugada lá no alto.

DIA 3: Curtir a noite na praia do rio

Diferentemente de outros rios locais de proporções gigantescas, como o Negro, o Tapajós e o Amazonas, o Cristalino é estreito e aconchegante. Suas águas negras, transparentes e pouco viscosas são excelentes para demorados banhos de rio nas margens de pedra ou nas pontas de areia que se formam na seca. Pertinho do hotel, a Ilha do Ariosto, na confluência com o Teles Pires, é um local perfeito para se dormir na praia, onde o hotel possui uma segunda base. Ali fica a Trilha das Borboletas – que, aliás, estão por todos os cantos. É preciso levar barraca e todo equipamento de camping, pois o hotel não dispõe desse serviço. À noite, a brincadeira é sair com uma lanterna andando pela praia focando os olhos dos jacarés.

DIA 4: Rafting até o Teles Pires

Este passeio é uma delícia e pode durar muitas horas. Basta sair do deque do hotel e descer o rio até o Teles Pires, pedindo ao barqueiro para ir te buscar de voadeira depois. Ou subir o rio por mais uma hora de voadeira e esticar a descida. As corredeiras são bem tranquilas, todas classe 1, e a aventura vale pela paz e oportunidade de avistar bichos sem o barulho do motor dos barcos. Jacarés, sucuris, capivaras e tracajás parecem ser habitués das praias. O macaco-aranha e o prego marcam presença nas árvores. Cruzar com uma onça-pintada bebendo água é raro, mas não improvável. Nós tivemos essa sorte em uma das cinco vezes que realizamos a empreitada. Foi alucinante ver a pintada matando a sede na margem a poucos metros de nossos olhos. Eu e minha mulher a apenas um bote de distância. Quando percebeu nossa presença, ela virou-se, fitou-me nos olhos e, calmamente, rodopiou o corpo, deu dois passos e saltou para o barranco, desaparecendo na mata. O coração veio parar na boca. Para o sucesso do passeio, não esqueça de levar um lanche, muita água, repelente e protetor solar. Vá sem pressa, pois o rolê é mais de contemplação que ação. Quem quiser remar de verdade pode optar pelas canoas canadenses disponíveis no hotel.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de agosto de 2014)