Vim, vi e sobrevivi

Um relato brasileiro sobre a pior tragédia da história do Everest

O alpinista ROMAN ROMANCINI foi ao Everest no mês passado tentar realizar um sonho que o persegue há 20 anos. Chegando lá, no entanto, acabou testemunha de uma das maiores tragédias já ocorridas na história do montanhismo. A seguir, ele conta o que viu


INFORTÚNIO: Autor dessa reportagem no acampamento base do Everest ; na foto abaixo,
resgate na montanha após a avalanche mortal

UMA VEZ ME PERGUNTARAM o que seria mais díficil em uma expedição às famosas montanhas do Himalaia. “Partir”, respondi. Os dias que antecedem a saída do Brasil são uma verdadeira confusão. Você tem pouquíssimas horas de sono, uma lista infindável de afazeres, tanto no trabalho quanto na preparação da viagem, e ainda tem que tentar exercer a milenar arte de se levar somente o indispensável para a sobrevivência no mais inóspito dos lugares, onde nem ar existe. Tudo isso em dois volumes de 23 quilos.

Entre todos os preparativos e a panacéia de emoções, há uma grande confusão sentimental, quase bipolar, que vai desde a genuína ansiedade de finalmente realizar um grande sonho até a devastadora dor de deixar para trás tudo o que mais amamos. Por mais confiante que estivesse, ver aquela incerteza do regresso nos olhos da Dani, minha mulher, e o choro doído das crianças ante a perspectiva de, no melhor dos casos, ver o pai dali a dois meses, pôs em xeque essa obsessão que me acompanha nos últimos 20 anos. Partir, sem dúvida, é a parte mais difícil de qualquer expedição.

Eu havia conseguido permissão para tentar escalar a montanha mais alta deste planeta, o Everest (8.848 metros), e seu irmão siamês, o Lhotse (8.516 metros), a quarta mais alta, ambos na mesma temporada, feito ainda inédito. Um último telefonema antes do embarque expõe em lágrimas um novo componente: a vitória. Em fevereiro de 2011, poucos dias antes do embarque para o Nepal, fui atropelado enquanto pedalava. Desta vez, estava de fato indo. Partir era também uma vitória! As quase 30 horas que separam o Rio de Janeiro de Catimandu seriam suficientes para celebrar, reorganizar a cabeça e o coração.

Enfim, Catimandu. Estava com saudades desta divertida bagunça. É a terceira vez que venho e continuo achando incrível como, apesar do caos geral desde a alfandega até o trânsito, isso aqui funciona e as pessoas parecem felizes. Do aeroporto, ainda confuso com o (con)fuso horário de 9 horas e 45 minutos a mais (isso mesmo, 9 horas e 45 minutos), vou direto para o escritório da Himalayan Guides, operadora local que nos ajuda com os trâmites burocráticos e logísticos. Lá conheço Rob Casserley (oito vezes no cume do Everest) e os últimos quatro integrantes que ainda não partiram para o campo-base. O resto do nosso grupo de 14 alpinistas, com os quais eu dividiria pelas próximas semanas tarefas, lágrimas, sorrisos e cervejas, já estava a caminho do acampamento. Após gentilezas trocadas e muitas perguntas curiosas, com o claro intuito de se descobrir as capacidades de cada um, ficou evidente a empatia mútua, fundamental para o sucesso de qualquer expedição. Não me sinto mais tão solitário na loucura quase inconsequente de fazer duas montanhas na mesma temporada.

Depois de uma breve entrevista com Billie, uma alpinista alemã que é assistente da famosa Elizabeth Hawley – uma senhora de 90 anos que vem dedicando toda sua vida para construir o Himalayan Database, um banco de dados com informações de todas as expedições, bem ou mal sucedidas nas montanhas dessa cordilheira – nos dirigimos ao ministério do turismo para o enfadonho ritual burocrático de concessão das permissões. Na audiência, não entendi absolutamente nada do inglês idiossincrático do ministro, com exceção de “8 kilo trash”. Deduzi tratar-se da nova lei que obriga cada um dos 336 alpinistas desta temporada a trazer de volta 8 quilos de lixo da montanha – um lampejo de consciência ecológica, finalmente. Frio na barriga ao ver meu nome nas permissões para duas das mais difícies montanhas deste planeta. Volto a me questionar. Por que fazer isso? Arrogância? Excesso de ambição? Prefiro pensar que é parte de um grande sonho megalomaníaco ou Ultimate Adventure Grand Slam (escalar as 14 montanhas acima de 8000 metros, as mais altas de cada continente e chegar aos dois Pólos). De posse das autorizações, a ansiedade tomou conta de todos. Nada mais nos impedia.


TUDO PRONTO: Malas a postos, foto tirada do avião e abaixo permissão concedida
para a escalada do Everest pelo governo do Nepal



Às 5h15 da manhã seguinte já estávamos todos no lobby do hotel, prontos para o que acreditávamos ser o primeiro e último risco não controlável da viagem: o vôo de Catimandu para Lukla, um pequeno vilarejo a 2.800 metros de altitude nas encostas das montanhas que definem o vale do Khumbu e que é ponto inicial do trekking até o base camp, ou simplesmente BC, do Everest. O aeroporto de Lukla é considerado o mais perigoso do mundo, dada a diminuta pista em aclive, que mais parece uma pista de vôo-livre, e a grande susceptibilidade às intempéries metereológicas, tão típicas na região.

Já seguros após a aterrissagem, partimos para a jornada de oito dias até o BC, recheada de surpresas, descobertas e lições de vida. Em um agradável encontro com o amigo e guia Manoel Morgado em Monjo, um pouquinho do Brasil do outro lado do mundo e planos ambiciosos para 2015. Em Namche Baazar, conheço Babi Ram Tamang, um garoto franzino, membro de castas inferiores, primogênito de quatro irmãos, cuja mãe abandonou a família e o pai trabalha como carregador para sustentar sua prole. Babi estaria condenado a um futuro de pobreza se não fosse um ato nobre e humanitário: dois anos antes, o casal de médicos Rob e Marie-Kristelle decidiu custear moradia e estudos para o garoto na Hillary School, em Khungjung, fundada em um rompante altruísta por Sir Edmund Hillary, o primeiro homem a escalar o monte mais alto deste planeta, acompanhado do sherpa nepalês Tenzing Norgay.

Em Pangboche, subimos ao monastério onde vive o Lama Geshi, um dos últimos sobreviventes dos lamas tibetanos. Em um momento de profunda espiritualidade, conhecido como “Puja”, recebemos as primeiras bençãos e conselhos para seguirmos com nossos ousados objetivos. Em Pheriche, conheci o incansável trabalho dos médicos voluntários do Himalayan Rescue Association, salvando em média 600 pessoas por ano de doenças provenientes da altitude (principalmente edemas pulmonares, cerebrais e Mal da Montanha, causado pela escassez de oxigênio). Lá também me deparei com o memorial aos alpinistas mortos no Everest. Gelei! Busquei o nome de Vitor Negrete, brasileiro que em maio de 2006 faleceu na montanha. Desabei ao encontrá-lo. Por horas fiquei ali, lembrando de todos os momentos que havíamos passado juntos nas montanhas e fora delas. Lembrei-me de seus filhos, que têm a idade dos meus. Me sentia muito próximo a ele, como nunca antes neste últimos 8 anos desde sua morte. Havíamos planejado escalar o Everest juntos, e finalmente havia chegado a hora. “Me ajude nessa, irmão. Dessa vez vamos juntos”, pensei.



LEGADO: O garoto Babi em frente à Hillary School, fundada por Sir Edmund Hillary; abaixo,
Roman no aeroporto de Lukla, no Nepal

NO DIA 16 DE ABRIL CHEGAMOS AO CAMPO-BASE. O clima estava fechado e frio, neve caía. Levamos uns bons 30, 40 minutos para encontrar nosso acampamento em meio ao cenário lunar. A 5.350 metros de altitude não há vida endêmica, apenas um amontoado de gente empilhada temporariamente em barracas cercadas por pedras. Nos próximos dois meses minha casa seria uma barraca de dois metros quadrados, com temperaturas variando de -15°C a 45°C. O banheiro era uma latrina improvisada em um barril, dividido por todos. O banho seria à base de lenços umedecidos ou com uma bacia de água quente – algo possível apenas no horário mais quente do dia mais ensolarado, ou seja, a cada duas ou três semanas. Tínhamos ainda a barraca-refeitório, que, além de servir para comer, seriaé ponto de encontro, sala de reunião e salão de jogos. Ao todo, o BC abriga durante a temporada de escalada cerca de 1.000 pessoas, entre alpinistas, chamados de westerners (ocidentais), e sherpas, que dividem as funções de cozinheiro, carregadores, guias e trabalhadores de altitude. A expressão sherpa se tornou uma espécie de marca que abrange todos os trabalhadores de grande altitude, independentemente de suas etnias. O Nepal tem 125 castas ou grupos étnicos; sherpa é apenas uma delas.

O dia seguinte foi de descanso, planejamento e coordenação logística entre todas as 39 expedições da temporada 2014. Para os sherpas, etnia dominante no vale do Khumbu e principal força motriz das expedições devido a sua adaptação à altitude, o Everest, chamado por eles de Sagarmatha (Rosto do Céu) ou Chomolungma (Deusa Mãe do Universo), é considerado não apenas um acidente geográfico singular, o ponto mais extremo do planeta, mas a morada de Miyolangsangma, divindade do budismo tibetano. Para eles, seus flancos emanam energia espiritual e os efeitos cármicos de nossas ações são amplificados enquanto em território sagrado. Assim, nenhum sherpa entra na montanha sem as devidas cerimônias religiosas. Mais um grande Puja é realizado, desta vez envolvendo inúmeras expedições. Toda ajuda é mais que bem-vinda!


HOMENAGEM: Santuário próximo ao acampamento-base


Roman em frente a monumento aos mortos no Everest; abaixo, a noite no Himalaia



As tarefas e processos logísticos que permitirão a abertura de uma rota de ascensão estavam definidos, e a previsão do tempo não poderia ser melhor. Muitos alpinistas já haviam começado os ciclos de aclimatação, escalando outras montanhas no caminho do BC – uma forma de minimizar a exposição aos riscos de uma avalanche, diminuindo o número de passagens pela temida cascata de gelo do Khumbu, um rio de gelo formado por grandes blocos (muitos deles, resquícios de avalanches) e enormes gretas, descendo do campo 1 da face sul do Everest de uma altura equivalente ao Corcovado. Bizarro, medonho e lindo. A grande massa de trabalhadores de altitude, no entanto, havia esperado pela chegada dos equipamentos, mantimentos e principalmente pela cerimônia de “abertura” da montanha, o grande Puja. O grid de largada estava pronto, abastecido e… congestionado. Um sinal de alerta que poucos, muito poucos captaram.

Às 18h nosso jantar é servido e a discussão sobre como serão os próximos dias começa. Rob sugere ao seu grupo que 4h30 seria uma boa hora para começar a escalar. Henry Todd, líder geral da nossa expedição, pondera: “Amanhã todas as expedições estarão subindo”, e sugere que esperemos mais um dia. “Esperar mais um dia? Nem ferrando! Esperei anos por isso!”, penso. Olho para o lado e vejo rostos com similares expressões. Ninguém quer esperar mais nada. Essa é a sutil e vital diferença que só a experiência traz. Henry havia entendido o alerta; nós e a grande maioria das expedições, ainda cegos pela euforia, só queríamos começar. Depois de mais de duas horas de discussão, decidimos subir no dia seguinte, saindo um pouco mais tarde, às 8h. Assim não atrapalharíamos os sherpas e os escaladores mais fortes.


TUMULTO: Barracas da expedição amanhecem cobertas de neve; abaixo, protesto
dos sherpas após acidente


Praticamente não dormi. Não conseguia parar de imaginar como seria o dia seguinte. Dois temas me preocupavam. Primeiro, uma estranha sensação de que não faria cume. Não sabia explicar exatamente o porquê, talvez tivesse a ver com a preocupação excessiva com meus dedos, que depois de um semi-congelamento durante a escalada do Aconcágua no inverno de 2004 nunca mais foram os mesmos. Segundo, o dia seguinte, 19 de abril, era aniversário da minha mulher e do meu filho. Já era difícil não estar presente. Tudo que não podia acontecer era não conseguir falar com eles – algo bastante provável, uma vez que a comunicação no BC era extremamente precária. Mas como se explica isso para uma criança de 6 anos?


POR VOLTA DAS 6H, fui acordado por um barulho de helicóptero, sem me dar conta que havia dormido – resultado da hipoxia e do dueto adrenalina-endorfina. Fazia um frio descomunal e graças aos primeiros raios de claridade consegui ler o que dizia o relógio pendurado na barraca: “6:02AM, –15°C”. Pensei: “Ainda bem que decidimos sair às 8h, deve estar um inferno gelado na cascata”, sem saber que minha definição de inferno mudaria em poucas horas. Iniciei o moroso processo de preparação para sair da barraca, esquentando as roupas e bota dentro do saco de dormir e forçando goela abaixo um número sem-fim de comprimidos juntamente com o litro matinal diário de chá. Hidratação é a chave para uma boa aclimatação.

Ainda dentro da barraca, escuto algo como um trovão de uns 30 segundos. “Essa parece ter descido no West shoulder, espero que não tenha atingido a cascata”, pensei. Avalanches ao redor do campo-base são tão frequentes que acabamos aprendendo a identificar de onde elas vêm de acordo com o som e a hora. O West shoulder é uma verdadeira pista de lançamento de projeteis, que têm a região da cascata do Khumbu (também conhecida como popcorn, ou pipoca) como campo de pouso.

Sigo na rotina de preparação, até que percebo uma movimentação anormal para aquela hora do dia. Me apresso e saio para descobrir que aquela noite tão fria havia se transformado no mais belo dos dias. Olho para o Everest e não vejo um único sinal de vento. “Belo dia de cume! Espero ter outro desses daqui a algumas semanas, é tudo o que preciso”, pensei. Santa ignorância…

Ainda me espreguiçando, solto um “bom dia, pessoal”. Pausa silenciosa, seguida da notícia de que houve um acidente na cascata. “Não parece ser um bom dia”, disse-me o inglês Daniel. Começo a olhar em volta e o BC mais parece um formigueiro. Avisto Henry próximo à barraca-refeitório com dois rádios na mão e corro em sua direção – correr a 5.350 metros de altitude é um exercício de equilíbrio similar ao slackline, com a intensidade de um sprint de 100 metros. Conheço bem Henry, mas nunca havia visto aquela expressão em seu rosto.

Sentei-me ao seu lado para recuperar o fôlego e tentar entender o que se passava. Diálogos esquizofrênicos se atropelavam. Pelo rádio, os melhores alpinistas do planeta e os médicos disponíveis na região coordenavam os esforços de resgate, ora em nepali, ora em inglês. Em outro canal, os líderes das expedições faziam uma espécie de chamada oral, tentando descobrir quem eram os desaparecidos. “Desaparecidos? Como assim, no plural?”. Daniel, o inglês, estava certo. Não era um bom dia. Na verdade seria o pior dia da história daquele vale, daquele povo, daquele esporte. Nossos sherpas estavam fora das barracas, a aflição era visível. O BC havia mudado. Um silêncio mórbido pairava no ar rarefeito.

Rob e Marie-Kristelle, junto de outros médicos, já estavam em operação. Rob havia subido a montanha no primeiro sinal da catástrofe e reportava as condições via rádio. Estava em um campo de batalha, fazendo o possível com os recursos limitados para salvar os ainda vivos. Marie se preparava para receber os feridos e mortos no improvisado heliporto. O tempo continuava perfeito e a temperatura subia rapidamente, o que aumentava o risco de mais avalanches. Tudo o que não precisávamos era mais gelo despencando em uma montanha cheia de equipes de resgate.

Dois helicópteros finalmente chegaram. Um alvoroço sem precedentes se instalou. Todos corriam para carregá-los com mantimentos, remédios, macas e mais alpinistas. No ímpeto de ajudar, fui até um dos dois heliportos e ofereci ajuda. “Você é médico?”, perguntaram. “Não”. “Então arrume pás e picateras”. Pouco consegui contribuir, então fui tentar documentar o que acontecia. Com uma câmera com um zoom poderoso, finalmente consegui entender e filmar o trágico cenário. Pessoas estavam presas entre blocos de gelo do tamanho de carros e casas. Algumas estavam sendo desenterradas, outras simplesmente sumiram. Era possível ver o esforço hercúleo dos “soldados”, trabalhando a quase 6.000 metros de altitude com piquetas rudimentares, feitas para escalar e não cavar. Era possível ver a neve avermelhada de sangue. Era possível ouvir o desespero. Estávamos perdendo a guerra. Um dos pilotos tentou pousar por quatro vezes no local do acidente, mas as rajadas de ventos o empurraram de volta ao BC. A frustação tomou conta de todos e os canais de rádio passaram a reproduzir palavrões e nervosismo.

Os feridos menos graves começam a descer a montanha escoltados. Rob entra no rádio mais uma vez e, na tentativa de ganhar prioridade no transporte aéreo, descreve a precária situação do alpinista que acabara de ajudar. “Grave fratura de femur, risco de vida”. Nova tentativa de pouso, desta vez do outro piloto. “Esse é o Jason”, escutei. “O cara é o melhor. Se ele não aterrissar, ninguém consegue”. Erámos uma torcida em final de campeonato e o visor da minha câmera, o camarote. A platéia do BC veio abaixo com a notícia do pouso bem sucedido. Gritos e aplausos ecoaram pelas encostas rochosas. Nós, privilegiados, assistíamos a cena pelo diminuto visor torcendo para que o peso extra colocado no helicóptero não o levasse ao solo – resgates aéreos a essa altitude são extremamente perigosos, pois quase não há ar para sustentação da aeronave.

Mais dois helicópteros chegam. Corpos mutilados e retorcidos chegavam a todo instante, alguns ainda com vida. Precisava falar com minha família, garantir a paz de espírito da Dani. Precisava avisar ao Brasil e aos amigos que eu e os outros cinco patrícios estávamos bem.

Horas se passaram como minutos e o fim do dia trouxe consigo os heróis da montanha e o resultado da tragédia: 16 mortos e mais de 40 feridos, todos nepaleses que, por sua capacidade física e experiência, estavam ali abrindo caminho para nós, ocidentais. Certamente o bom tempo ajudou a reduzir o número de fatalidades. Mas, mesmo assim, por que tantos? Todos os anos, entre seis e sete pessoas morrem tentando escalar o Everest. Em 2014, uma já havia morrido, por conta de um edema. Como uma catástrofe desta magnitude aconteceu em meio a uma avalanche corriqueira? Seria tudo isso apenas a vontade de Miyolangsangma de preservar sua privacidade este ano?

Como dizem, um avião não cai por um único motivo. Na montanha, não é diferente. Muitas expedições esperaram a grande Puja para começar a subida, o que fez com que naquela manhã muitos montanhistas estivessem percorrendo aquele trecho inicial. Uma escada quebrada interrompeu o fluxo de mais de 100 deles (sherpas e westeners) por mais de duas horas. Alguns, por intuição, medo ou conhecimento, desceram; outros esperaram o conserto. O circo estava armado, e superlotado. Não é nada comum uma avalanche acontecer às 7h. Pelo contrário, é uma das horas mais seguras para se atravessar qualquer terreno instável. Tão incomum quanto é a avalanche encontrar em seu caminho uma platéia tão numerosa, encurralada em uma área do tamanho de uma quadra de vôlei, esperando por tanto tempo.


ZONA DA RISCO: Feridos que ainda conseguiam caminhar voltam ao campo-base; acima,
montanhistas auxiliam pouso de helicóptero após a avalanche


“E AGORA?”, ERA A PERGUNTA que todos se faziam. Algumas expedições perderam até 70% de sua força de trabalho no acidente. Outras, mais afortunadas como a nossa, perderam apenas a confiança. Todos estávamos chocados e comovidos. Entretanto, a tragédia não havia terminado. Por quatro dias, a região, o país e toda a tribo de montanhistas espalhados pelo planeta ficaram de luto. Sherpas e amigos voltaram para as vilas e seus ritos fúnebres. A montanha estava oficialmente – e moralmente – fechada.

O mundo estava perplexo. Fundos de ajuda e campanhas nas redes sociais foram organizados, com uma impressionante força viral. Lideranças entre os sherpas surgiram, não sei se tão naturalmente. Um abaixo assinado com mais de 300 assinaturas nepalesas surgiu. Os pleitos, derivados da injustiça social comum em países pobres e amplificados pela tragédia, se materializaram em um documento com 13 demandas para o governo, como melhores condições e garantias de trabalho, seguros de saúde e vida mais expressivos, resgates de helicóptero e criação de um fundo de amparo às famílias sherpas. Nada mais justo, a meu ver. Apenas a forma de reinvindicar isso talvez pudesse ter sido outra.

Após os quatro dias de luto, o clima mudou consideravelmente. O horror deu lugar à ambição. As questões sócio-humanitárias perdiam para as questões político-econômicas. Nessa altura, algumas expedições já haviam concluído que era impossível continuar. Outras, como nós, ainda resistiam na esperança da bonança após a tormenta. Começamos a planejar cenários alternativos, planos B, C, D. A última opção era partir para o estilo alpino, que prioriza a leveza e a velocidade, aumentando exponencialmente o risco. Não era uma opção para mim. Tenho dois filhos e o plano de seguir escalando – sem falar na falta de competência e coragem.

O equilíbrio já não existia. A harmonia e cumplicidade, motor propulsor estabelecido pela dupla Ed Hillary e Tenzing Norgay na primeira subida do Everest, se partira. Escutávamos dos sherpas: “Nosso problema é com o governo, não com vocês”. Antes éramos “nós”, agora havia “eles”, “nós” e “vocês”.

Era o prenúncio de (mais) uma morte anunciada. Não me refiro apenas à expedição, mas à toda cadeia econômica deste tipo de turismo, da qual dependem milhares de famílias nepalesas. O Nepal é um dos países mais miseráveis do mundo: 25% da população vive abaixo da linha da pobreza; 83% vive em zonas rurais. Nelas, a renda média é de aproximadamente 1 dólar por dia, menos de 400 dólares por ano. Um sherpa alpinista ganha por temporada entre 6 e 15 mil dólares. É sem dúvida um trabalho arriscado, mas de grande retorno.

Anualmente, cerca de 100 mil montanhistas passam pelo Nepal, girando um volume de algumas dezenas de milhões de dólares a cada ano. Muitos descrevem a relação comercial do mundo ocidental com os sherpas como um certo parasitismo de nossa parte. Por três vezes estive lá e vejo a questão de uma forma mais simbiótica. “Meus sherpas”, como dizemos, hoje são meus amigos, não meus escravos ou empregados. É uma questão de opção e ambição pessoal, não de obrigação.

Como em todo movimento político, havia os dirigentes, os dissidentes e os extremistas. Os sherpas não eram mais uma etnia, mas sim uma espécie de partido político, sindicato. Um povo reconhecido por sua alegria inata e postura subserviente agora tinha representantes com discursos e ações que lembravam os terroristas maoístas do oeste. Em uma reunião nossa com outra expedição, veio o tiro de misericórdia: “Nossos sherpas foram ameaçados. Todos que continuassem a escalar teriam suas pernas quebradas”. Era impossível acreditar no que ouvíamos. “Amanhã cancelaremos qualquer atividade. Estamos voltando para Catimandu, não iremos arriscar nossos sherpas e suas famílias.”

Como éramos alguns dos últimos resilientes, fomos procurados pelos Doutores da Cascata, um grupo de experientes alpinistas sherpas cuja função é estabelecer e manter em condições seguras a via pela cascata de gelo durante toda a temporada. Eles queriam nos convencer a também deixar a montanha. Insistimos que eles nos ajudassem a tentar a escalada e nos disseram que também corriam risco se trabalhassem.

A pressão por parte dos sherpas contrários à continuidade da temporada tem também um componente econômico: a tendência crescente de expedições totalmente guiadas por nepaleses. Muitos deles abriram suas próprias agências e operadoras e estão de olho nas verdadeiras fortunas gastas com turismo e esporte de aventura. Seria este o tempero picante mas aparentemente imperceptível que faltava? Eu não sei dizer.

Havia ainda a questão religiosa: muitos sherpas interpretavam o acidente como uma insatisfação divina com a presença em território sagrado. Mulheres e filhos, temerosos com as implicações “cármicas”, insistiam no regresso de seus maridos e pais. Era uma tragédia humanitária, um desatre sócio-econômico, uma afronta político-religiosa e um drama pessoal. Era o fim do Everest em 2014 para mim e todos os outros que ainda resistiam. Chorei compulsivamente.


OS EVENTOS QUE SE SUCEDERAM À CATÁSTROFE do dia 18 de abril mudaram de forma definitiva a maneira como o mundo se relacionará com este vale e seu povo. No fim, o governo se comprometeu a atender todas as demandas exigidas, durante uma reunião a céu aberto no próprio BC, com a presença dos principais ministros. Muitas agências e operadoras cogitam a hipótese de desviar suas operações para a face norte, via China. Todas querem garantias do governo nepalês para 2015. Muitos sherpas estão preocupados com o futuro e com a economia local.

Perdemos amigos, irmãos, desconhecidos, guias profissionais, carregadores anônimos, jovens esperançosos e alpinistas experientes. Mas perdemos, sobretudo, a confiança visceral, aquela que une dois alpinistas na vida e na morte. O matrimônio da montanha, a crença de que a lealdade mútua impera e o resto são apenas sonhos ambiciosos. O montanhismo romântico lentamente se transforma em mais uma forma de prestação de serviço. Novamente, partir é preciso, escalar não é preciso, regressar é obrigatório!

Partir, sem dúvida, é a parte mais difícil de qualquer expedição. Namastê.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de junho de 2014)