Asas indomáveis

Conheça algumas mulheres que estão ajudando a expandir os limites do base jump

Elas não estão nem aí para aquelas que dizem que o base jump é um esporte masculinamente perigoso: para as ainda raras atletas da modalidade, nada mais intenso e maravilhoso que saltar de prédios, penhascos, pontes e antenas


Por Maria Clara Vergueiro


PEITO ABERTO: Paloma Oliveira na Grécia
(Foto:
Kontizas Dimitrios)


RITA BIRINDELLI TEM 30 ANOS. Miúda, de cabelos claros, grandes olhos verdes e sorriso largo, acorda cedo e trabalha mais de dez horas por dia em um escritório na cidade de São Paulo, de segunda a sexta-feira. A fala é mansa, ainda mais quando está ao lado do namorado gente fina. Aparentemente trata-se de uma rotina “normal”, até a chegada do final de semana, quando essa curitibana formada em paraquedismo pratica seu esporte predileto há dois anos: o base jump.

O gosto da moça por saltos de cima de prédios, antenas, pontes e penhascos (em inglês buildings, antennas, spans and earth, cujas iniciais formam a sigla “base”) desperta surpresa na maioria das pessoas, acostumadas a ver a modalidade como uma prática extremamente perigosa que flerta com a morte. O espanto torna-se ainda maior quando o atleta em questão é uma mulher.

Como Rita, a paulista Paloma Oliveira, 31, também abre os braços para os saltos e ignora os olhos arregalados dos que ainda não enxergam o base jump como um esporte sério. As duas acreditam que a evolução da modalidade irá elevar também o nível das perguntas dos curiosos. “Reparo que há um crescimento no número de mulheres fazendo base jump, mas ainda somos uma cifra pequena. Se tem alguém saltando aqui no Brasil, geralmente sabemos quem é”, conta Paloma, que trabalha no desenvolvimento de projetos multimídia e faz mestrado em artes plásticas.

Entre os cerca de 60 praticantes no Brasil, segundo estimativas não oficiais, apenas cinco são do sexo feminino: três mais experientes (Rita e Paloma entre elas) e duas começando a experimentar o base jump, que exige um alto grau de concentração, técnica e coragem – sendo esta última uma qualidade geralmente mais atribuída a homens que mulheres. “O mundo já é bem machista. Em um esporte onde a maioria esmagadora de praticantes é composta por homens, essas ideias ficam ainda mais presentes, embora eu sinta o peso delas mais fora do que dentro do ambiente do base”, diz Rita, que logo foi aceita pela pequena comunidade de atletas brasileiros e acabou se tornando namorada de seu “tutor”, o veterano Ruy Fernandes. Ele é um dos mestres da modalidade no país e já ensinou a muita gente a maneira certa de dobrar o paraquedas ou a posição correta do corpo na hora do voo. Para ele, a presença feminina no esporte acentua o grau de democracia entre os praticantes, além de adicionar pitadas de graça e beleza ao universo desse esporte. “Como não há distinção real entre nós, os estigmas e paradigmas negativos são superados”, define Ruy.


CARA E CORAGEM: A italiana Roberta Mancino em ação


BASE LADIES, o grupo criado por Rita no Facebook, reúne mais de 160 praticantes ou entusiastas de todo o mundo. Uma delas é a italiana Roberta Mancino, atleta de base jump, wingsuit, paraquedas, mergulho e kick boxing, além de modelo e musa. Experiente, Roberta começou a saltar aos 17 anos e contabiliza 240 saltos de base em sua carreira, metade deles de wingsuit (macacão específico para voar, com mangas parecidas com as de morcegos). Quando está em queda livre, resgata as aulas de dança, atividade à qual se dedicou dos 4 aos 14 anos e, com a graça de uma bailarina, transforma os voos em performance artística. Com mais de 7 mil saltos de skydiving e dona de recordes mundiais nessa modalidade, Roberta é referência para atletas de vários países e foi vice-campeã, em 2013, do ProBASE World Cup, campeonato mundial de base jumping realizado em Stechelberg, na Suíça.

Outro nome de peso no esporte é a norte-americana Steph Davis, atleta profissional de escalada em rocha e base jump. Nascida em uma família de acadêmicos nada ligada ao universo outdoor, ela descobriu montanhas e rochas por conta própria e encontrou no base a “extensão da vida selvagem” que escolheu. Durante anos, foi companheira de Dean Potter, um dos precursores do base jump e slackline no mundo. “Para mim, é algo que está ligado ao intelecto e à espiritualidade, não à atividade física. O base trouxe mais dor e também mais alegria à minha vida do que qualquer outra coisa”, diz Steph, que no ano passado perdeu o marido, Mario Richard, em um voo de wingsuit nos Alpes italianos. Ela estava com ele o companheiro e havia acabado de saltar quando Mario teve problemas com a abertura do paraquedas.

De acordo com a comunidade internacional de atletas de base jump, 223 pessoas morreram entre 1981 e 2013 saltando de algum dos “quatro objetos” (prédios, antenas, pontes e penhascos) – número que estreita ainda mais os laços entre os adeptos brasileiros, acostumados a andar em grupo e zelar pela segurança uns dos outros, como uma grande família. Embora as estatísticas assustem, não paralisam os apaixonados. “É um esporte que nos aproxima de muitos temas sobre os quais nossa sociedade não costuma pensar, especialmente a morte. Virou meu maior canal de espiritualidade porque me coloca no momento presente de forma intensa, em um estado meditativo de autoconhecimento”, define Paloma. A amiga Rita, que recentemente tirou 20 dias de férias do trabalho na área de planejamento de mercado para visitar a pequena cidade suíça de Lauterbrunnen – considerada o paraíso do base jump –, também não nega os riscos e aposta na perícia de cada salto para evitar tragédias. “Ninguém simplesmente se joga no abismo, existe muito planejamento por trás de cada voo”, diz ela, que voltou da viagem à Europa com mais 33 saltos na bagagem.

Um dos temas mais delicados entre as atletas de base jump é a maternidade. Paloma é casada e tem um gato. Não pensa em filhos para os próximos dez anos. Rita já está com a questão resolvida: não vai ser mãe, embora adore “as crianças dos outros”. Roberta pretende, um dia, deixar o base jump no baú e constituir uma família. Viúva há menos de um ano, Steph vive em Utah (EUA) com um gato, Mao, e um cachorro, Cajun, e acredita que escalada e base jump não combinam com filhos. “Já perdi inúmeros amigos que deixaram crianças órfãs e sei que pais nunca podem ser substituídos. A verdade é que não se pode fazer tudo na vida e, às vezes, é preciso escolher”, afirma a norte-americana. Como mantra, ela sempre repete mentalmente as seguintes palavras: “Valorize cada momento e lembre-se de que o tempo não espera por ninguém”.


>> Na cabeça delas

O que pensam as mulheres que vivem para voar


“O desafio é conseguir a melhor performance em situações estressantes. Mas eu não salto porque gosto do perigo. Se base jump fosse o esporte mais seguro do mundo, eu continuaria praticando-o.”

Roberta Mancino, italiana


“Às vezes acho que os homens encorajam as mulheres de um jeito perigoso, fazendo-as acreditar em suas capacidades mais do que deveriam. Logo aprendi que é necessário muito autoconhecimento para tomar minhas próprias decisões, independentemente do que me dizem. Sou muito autocrítica e bem conservadora.”

Steph Davis, norte-americana


“Tive muitos problemas com namorados, que se queixavam que eu só pensava e falava em base, que estava sempre rodeada de homens, que eu poderia morrer a qualquer momento. Hoje eu e meu marido temos uma relação bem legal porque ele respeita o espaço que o esporte ocupa em minha vida”.

Paloma Oliveira, brasileira


“Não vejo ninguém querendo enfrentar a morte, mas, sim, ressaltando a vida. Quando salto, tenho a plena sensação de que estou viva e de que as coisas à minha volta também estão.”

Rita Birindelli, brasileira


(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de março de 2014)

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