Mergulho no gelo

A bióloga Andrea Schmidt escreve sobre sua experiência de mergulho nas gélidas águas da Áustria

A bióloga brasileira Andrea Schmidt, apaixonada por mergulho, escreve a seguir sobre sua primeira experiência explorando as águas geladas da Áustria. Ela também é fotógrafa de natureza (saiba mais aqui).

Por Andrea Schmidt

Mergulhar em águas claras, quentes, repletas de peixes e corais coloridos é a opção preferida dos mergulhadores. Mas que tal experimentar algo diferente? Em vez de relaxar em uma praia paradisíaca, eu procurava algo mais desafiador. Algo que me fizesse pensar “o que eu estou fazendo aqui?”. E foi assim que decidi explorar um lago congelado em um curso de mergulho no gelo.

A Europa é conhecida pelos rigorosos invernos e, com isso, se tornou uma das mecas para a prática do mergulho no gelo. Meu treinamento começou com um curso de "roupa seca" (Dry Suit), com os requerimentos mínimos para explorar o gelo.

Aprender a usar roupa seca na piscina foi fácil, e são os mesmos exercícios do curso básico de mergulho: tirar e colocar equipamento dentro da água, treinar flutuabilidadee e aprender a inflar e desinflar a roupa. O complicado é quando vai muito ar para seu pé, e você sobe descontroladamente de ponta cabeça. Mas nada que uma manobra de cambalhota não resolva. Basta se lembrar do básico e sempre manter a calma.

Como já é de se imaginar, mergulhar no frio com roupa seca não é tão confortável quanto em uma água quentinha. Existem roupas térmicas específicas para mergulho no gelo que você pode usar por baixo, mas para o curso eu vesti apenas uma segunda pele, roupa térmica de montanhista e, por cima, um macacão de ski. Juntando tudo isso, mais equipamento e roupa seca, meu lastro (o peso do mergulhador) aumentou oito quilos.

O local do curso foi no lago Urisee, na região austríaca do Tirol. A camada de gelo no lago possuía 15 centímetros, e a temperatura fora da água marcava 4 graus Celsius negativos.



A primeira etapa foi escolher um ponto no lago e fazer o buraco, que segue o desenho de um triângulo. Isso facilita na hora de sair da água pelas bordas. Detalhe: nunca ninguém pode caminhar pelo lago congelado sem estar amarrado por uma corda, com uma pessoa te dando segurança. Mas, por sermos iniciantes, não conseguimos fazer um triângulo logo de cara, então decidimos fazer o buraco perto da plataforma onde havia uma escada de madeira, ótima na hora de sair da água com mais de 20 quilos de equipamentos.

As normas de segurança são maiores para o mergulho no gelo, devido aos perigos derivados do frio e por ser um mergulho com teto. Portanto, para alcançar a superfície, só voltando para o mesmo buraco de entrada. Por isso alguns fatores são diferentes do mergulho recreacional normal.

As turmas foram divididas, e só era permitido entrar na água três mergulhadores de cada vez; um instrutor e dois alunos. Um dos alunos leva a corda-guia, que é amarrada em seu colete. Com essa corda, ele consegue sinalizar para a pessoa que lhe dá segurança na superfície, indicando se está tudo bem ou se precisa de ajuda. Usa-se também a corda para saber o caminho de volta. Os três mergulhadores sempre vão presos um ao outro com uma curta corda chamada "buddy rope" com aproximadamente 1,5 Metros.

Fora da água deve ter dois mergulhadores prontos, equipados e amarrados em outra corda-guia. Esses são os mergulhadores de resgate, que devem entrar na água a qualquer sinal de perigo.

O equipamento é especial para mergulho no gelo e exige um cilindro com válvula dupla, assim como primeiro e segundo estágio separados. Dependendo da temperatura da água, o primeiro estágio pode congelar e você ainda terá o segundo estágio para abortar o mergulho e voltar para a superfície em segurança.

Uma das técnicas que aprendemos foi fazer ao redor do buraco marcações formando um desenho semelhante a uma mandala. Com a luz do dia podemos ver essas marcações quando estamos em baixo da água, assim em caso de algum acidente com as cordas seguimos os desenhos, que sempre nos levarão ao centro do buraco.

O frio te acompanha semopre, antes, durante e depois do mergulho, principalmente na cabeça e nas mãos, que doem muito ao primeiro contato com a água gelada. Mas a experiência compensa tudo. A visibilidade em baixo do gelo passa dos 20 metros e, para minha surpresa, encontramos vários peixes pequenos nadando no fundo do lago.

Toda a apreensão antes do primeiro mergulho no gelo é compensado por uma das melhores experiências que um mergulhador pode ter. É uma sensação incrível mergulhar e ver uma camada de gelo em cima de você, principalmente quando expiramos e as bolhas ficam presas entre o gelo, formando um visual único.

Recomendo a todos os mergulhadores!