Confissões de um Ultraman

Ex-dependente químico e sedentário, o advogado norte-americano Richard Roll tornou-se um triatleta dos mais durões

Ex-dependente químico e sedentário, o advogado norte-americano Richard Roll transformou-se em um triatleta dos mais durões – e conta agora suas histórias de superação em um novo livro

Por Mariana Mesquita


MULTITAREFA: Rich posa com sua bike de triathlon

RICHARD ROLL É UM CARA NORMAL. Ou melhor, quase. Pai de quatro filhos e advogado, ele levava uma vida sedentária às vésperas de seu aniversário de 40 anos quando, de repente, sofreu um ataque cardíaco. Quis o destino que Richard sobrevivesse – e a história de superação que se seguiu alçou-o à fama e incluiu seu nome entre os grandes ultra-atletas de sua geração. “Quando abri os olhos e percebi que ainda estava vivo, decidi que era hora de mudar radicalmente”, conta Rich, como é conhecido.

E bota radical nisso: em poucos anos, entrou em forma, tomou gosto pelo triathlon, caiu de amores por provas de longa distância e ultradesafios, até se tornar uma referência em resistência e força física. Sua performance esportiva angariou-lhe não apenas pódios, mas homenagens e prêmios: foi eleito um dos “25 homens mais em forma do mundo” pela revista Men’s Fitness e ganhou o posto de a “celebridade vegetariana mais sexy” do planeta pela renomada ONG de defesa dos animais PETA.

Ao longo da “nova vida”, esse homem de 45 anos participou três vezes do Ultraman World Championships – prova consagrada de triathlon que dura três dias, no Havaí, e tem como percurso total 515 quilômetros de bike, corrida e natação – e fez parte do seleto grupo de atletas a disputar o Epic 5 Challenge, uma competição e “jornada espiritual”, segundo seus organizadores, disputada em cinco ilhas havaianas, onde os participantes precisam completar cinco Ironman (cada um tem 3.800 metros de natação, 180 quilômetros de bike e 42 quilômetros de corrida). Em 2010, ele e um amigo fizeram o desafio em sete dias sem parar. “Como um homem de meia-idade, eu me perguntava se seria capaz de começar algum esporte. No início, só queria perder peso. Mas, quando se passa a treinar de verdade, a busca por desafios é inevitável”, diz o triatleta, que lança neste mês, nos Estados Unidos, o livro autobiográgico Finding Ultra: Rejecting Middle Age, Becoming One of the World’s Fittest Men, and Discovering Myself [Encontrando o ultra: rejeitando a meia-idade, tornando-se um dos homens mais em forma do mundo e descobrindo eu mesmo].

A transformação não foi fácil, e começou com uma reeducação alimentar. Adotou uma dieta vegetariana, mas continuava comendo besteiras – não se continha diante de uma bela pizza. Depois de seis meses sem perder peso e pronto para desistir, Rich deu um passo além e se tornou vegan, deixando de ingerir qualquer alimento de origem animal. “Nas primeiras semanas, sofri, porém logo me senti fantástico. Tenho saudade apenas de batata frita”, brinca. Com o novo cardápio, Rich ficou mais disposto e saudável, e o interesse pelo esporte consequentemente cresceu.


FUNÇÕES: Cenas do atleta (e pai) em ação no Ultraman

DEPOIS DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA TRANQUILAS no estado de Washington, nos Estados Unidos, Rich mudou-se para a ensolarada e liberal Califórnia, para cursar direito na prestigiada Universidade de Stanford. O ainda estudante praticava natação, modalidade que começou aos 6 anos por influencia do avô. “Eu não gostava de esportes de equipe. Mas na natação eu era bom e competi em nível profissional”, relembra. Porém, apesar da paixão pela piscina, ainda no primeiro ano do curso ele pendurou os óculos e a sunga em nome da farra. “Eu só queria saber de festas. Quanto mais bêbado ficasse, melhor. Terminei a faculdade, mas o álcool e as drogas me acompanharam pelos 15 anos seguintes”, conta Rich. Aos 31 anos, sem dinheiro e perdido na vida, ele tomou o primeiro passo para sair da lama. “Passei cem dias em uma clínica de reabilitação, em Oregon, e quando voltei estava sóbrio. Foi então que conheci minha mulher e me dediquei ao trabalho”, conta. Mas a saúde ainda não era prioridade. Foram-se mais 20 anos até que finalmente voltasse às piscinas. “Logo percebi que queria desafios maiores, então me arrisquei na bike e na corrida também”, afirma.


PANTURRILHA DE FERRO: Rich pedala no Ultraman World Championships, no Havaí

Sentindo-se meio desanimado e sem inspiração no esporte, um dia descobriu o Ultraman World Championships, evento criado em 1983 por três amigos apaixonados por triathlon. “Foi como se eu tivesse recebido um ‘clique’. Percebi que tinha que me inscrever.” Depois de conseguir uma vaga na edição de 2008, a meta traçada pelo advogado era apenas uma: concluir a prova. Mas Rich teve um desempenho bem melhor do que imaginava: um 11º lugar na classificação geral. “É difícil conciliar o dia a dia com os treinos. Mas quando se está disposto a sacrificar hábitos que não servem para nada, quando você se compromete de fato com um objetivo, sempre dá certo.”

Depois do sucesso na estreia, Rich participou da prova outras duas vezes. “Em 2009, terminei a natação em primeiro lugar. No começo da bike, sofri uma queda feia e pensei em desistir. Mesmo sem uma boa colocação, ter tido força para terminar nesse ano é algo do qual me orgulho muito.”

Outro desafio, considerado inimaginável pelo advogado anos atrás, foi o Epic 5 Challenge, no qual os participantes percorrem mais de mil quilômetros. “Meu treinamento foi intenso. Mas não deixei de participar de nenhum evento familiar e tive que me desdobrar no trabalho para dar conta de tudo”, explica o homem multitarefa, que é dono do seu próprio escritório de advocacia.

Desde o incidente assustador no aniversário de 40 anos, Rich escreve todos os dias em seu blog (richroll.com). Inicialmente poucas pessoas compartilhavam os pensamentos, angústias e dicas do triatleta. No entanto, o número de visitantes aumentou proporcionalmente a seu sucesso no esporte, e ele se tornou um símbolo de superação para muitos internautas fãs de seu diário virtual. “Mudar é difícil e, infelizmente, a dor é um motivador. Eu tive que sofrer até estar disposto a alterar meus caminhos”, diz. “Mas não precisa ser sempre dessa maneira. Você detém o poder para transformar sua vida. Pense nisso.”

Receita para o sucesso
Dez dicas para uma pessoa comum se tornar um grande atleta, segundo Rich Roll

> Não pense muito. Você não precisa ter certeza sobre seu destino no esporte. Não deixe que os pensamentos te impeçam de dar o primeiro passo.

> Tenha atitude. Não espere sentir vontade de ir treinar.

> Não tente ser perfeito. Todo ser humano precisa dar a si mesmo permissão para falhar. Aprenda com seus erros, senão é impossível evoluir.

> É mais válido um treino consistente por semana do que três sem intensidade. Faça valer a pena.

> Estabeleça uma meta — quanto mais específica, melhor. Assim é fácil mais atingir os objetivos.

> Depois de definir uma meta, crie um plano mais detalhado para diminuir o caminho até o ponto final. Isso vai te dar mais confiança.

> Quando atingir um de seus objetivos, recompense-se.

> Crie um blog. O contato com o público pode servir como uma rede de apoio. Mas fique longe de pessoas com pensamento negativo.

> Faça o que você ama. O exercício precisa ser divertido.

> Não siga dietas. Em vez disso, seja honesto com seus hábitos alimentares para causar mudanças mais duradouras na rotina.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de julho de 2012)