Qual é a travessia mais difícil do Brasil?

O escalador Pedro Hauck, do Alta Montanha, destaca algumas das melhores travessias do país


VISUAL: Marumbi visto desde o Morro do Balança

Por Pedro Hauck*, do Alta Montanha


Travessia é o conceito dado a uma caminhada que começa em um ponto e termina em outro diferente. No montanhismo se tornou um conceito famoso, pois, de acordo com ele, para ir de um ponto a outro você não escala uma montanha somente, mas sim várias e de uma só tacada — geralmente escalando uma serra inteira. Só por conta disso, o termo “travessia” já se tornou sinônimo de uma atividade de montanha comprometedora e difícil, que envolve diversos pernoites e bastante esforço físico e psicológico. Obviamente, por essa razão, há travessias e TRAVESSIAS.

Talvez, entre todas que existem no Brasil, a travessia mais famosa seja a da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro, ligando as cidades de Petrópolis e Teresópolis, passando pelo topo dos Castelos do Açu, Morro do Marco, Morro da Luva, Elevador, Baleia e Pedra do Sino, todas montanhas com mais de 2.000 mil metros de altitude.

Apesar das montanhas altas, os 35 quilômetros de trilha da chamada Travessia Petrô x Terê talvez seja uma das mais fáceis do Brasil. Isso porque a trilha é extremamente bem marcada, há boa sinalização, boa infraestrutura (com refúgios e campings estabelecidos) e predomínio de vegetação campestre, que permite uma caminhada livre de impedimentos naturais, por mais que em tempo fechado e com chuva a neblina facilite que grupos se percam.

Há travessias que são verdadeiras epopéias, mas que, pelas mesmas razões da famosa travessia da Serra dos Órgãos, são simples. É o caso da menos conhecida Travessia dos Campos dos Padres em Santa Catarina, que em sua versão mais completa tem mais de 70 km de extensão. Essa travessia, localizada na Serra Geral, no sul do Estado, percorre a borda dos cânions catarinenses, em meio a campos subtropicais e capões de Araucária. Ela passa pelo pico do Boa Vista, que com 1.827 metros é o mais alto de Santa Catarina e é um dos poucos locais no Brasil onde neva quase todos os anos. Apesar disso, ela é fácil, pois o relevo da região é mais planáltico do que montanhoso. A Serra Geral, em sua vertente voltada para o mar, é extremamente escarpada, mas a que é voltada para oeste é bem suave. Apesar da pernada, os "sobe-e-desce" são muito menores do que, por exemplo, os da Serra dos Órgãos.

Outra travessia famosa é a Tabuleiro x Lapinha, no norte de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Essa travessia de 37 km percorre diversos tabuleiros, que são montanhas em forma de mesa com topo plano típico do Brasil central. Há toda uma discussão se essas montanhas são “montanhas” ou “planaltos”. Independentemente da polêmica, a verdade é que essa travessia, que corta os cerrados mineiros, está longe de ser a mais difícil do Brasil.

Falando na “mais difícil do Brasil”, sempre nos vem à mente a travessia da Serra Fina, localizada na Serra da Mantiqueira, no Maciço de Passa Quatro, entre São Paulo e Minas.


NA SELVA: Pedro (esq.) e Fiori na travessia da Serra do Ibitiraquire

De fato não é a mais fácil. Como o nome sugere, essa travessia se desenvolve em cristas de montanhas com mais de 2.000 metros, em locais que às vezes são tão finos que dão vertigem. A grande dificuldade é exatamente essa. Na crista da montanha, não há nascentes de rios, e o montanhista que desafia essa travessia de 32 km, que passa pelos picos do Capim Amarelo, Pedra da Mina, Cupim de Boi, Três Estados, Altos Ivos e outros sem nome, ficam quase sem água o tempo todo, sendo necessário carregar o precioso liquido em mochilas.

O problema é que essas montanhas são algumas das mais altas do Brasil. A Pedra da Mina só perde em altitude para os picos da Neblina e 31 de Março, no extremo norte do país. Picos como o Capim Amarelo e Três Estados não perdem muito dele. Imagine subir essas montanhas com pesadas mochilas, carregando água e todo o material de camping? Não é fácil!

Apesar das dificuldades, a Travessia da Serra Fina não é, nem de longe, a mais difícil do Brasil, como muitas pessoas gostam de afirmar. Na verdade é difícil dar um título de “a mais difícil”, pois com a evolução do montanhismo no país, mais e mais pessoas têm conquistado travessias muito difíceis. Mesmo se considerarmos apenas as travessias já famosas e consolidadas, ainda assim a Serra Fina não seria a mais difícil.

Isso porque, na década de 1990, diversos montanhistas casca-grossa do Paraná resolveram abrir travessias nos principais blocos montanhosos da Serra do Mar. A primeira grande travessia aberta por lá foi a da Serra do Marumbi. Essa travessia começa no Morro do Canal, passa pelo Ferradura, Carvalho, Sem Nome, Mesa, Alvorada 2, 3 e 4, Espinhento, Pelado, Ângelo, Leão, Boa Vista, Olimpo, Gigante, Ponta do Tigre e enfim termina na estação Marumbi. São cerca de 20 km, bem menos que as anteriores. Porém, pela quantidade de cumes e distância, dá para ter ideia que o sobe-e-desce é muito grande. Outra dificuldade é a vegetação. Lá a serra é mais baixa, chove mais, tem mais vegetação e a trilha quase não existe, pois o número de gente que percorre a trilha é insuficiente para que fique aberta.

Essa travessia foi denominada nos anos 60 de Alfa-Ômega pelo veterano montanhista Henrique “Vitamina” Schmidlin, pois percorre o Marumbi do começou ao fim. Infelizmente, logo após sua conquista, feita pelo Máfia e o Dalinho em 1991 e repetida em 1995 pelos irmãos Cover (Tavinho e Giancarlo), Ednilson “Canidia”, Lauro e Emerson, foi considerada pelo então gestor do recém-criado Parque Estadual do Marumbi uma área intangível. Até hoje somente 1/3 do parque pode ser visitado, o que não significa que não tenha gente percorrendo aquelas montanhas — na verdade, muita gente ainda a faz, mas ficam quietos, pois sabem que não é permitido pelas regras ainda vigentes e pelo fato de sempre ter um "eco-chato" para ficar dando lição de moral, mesmo que o próprio também faça trilhas “proibidas”.

A mesma equipe de amigos que repetiu a Alfa-Ômega em 1995, publicando o feito na antiga revista Vertigem, um pouco depois se ocupou em conquistar uma nova travessia entre os cumes ainda desconhecidos da Serra da Farinha Seca, um bloco montanhoso um pouco mais ao norte do Marumbi. A Farinha Seca, erroneamente chamada de Serra da Graciosa, por ser tangenciada ao norte pela famosa estrada que liga o planalto curitibano ao litoral paranaense e é até hoje um bloco montanhoso pouco conhecido e freqüentado, com diversos cumes sem nome definido.

De acordo com o veterano Nelson “Farofa” Penteado, os pioneiros em subir aquelas montanhas foram os Bandeirantes da Serra, um grupo liderado por José Zanlute nos anos 40. Porém nunca tivemos acesso aos relatos, e é difícil falar em pioneirismo naquelas bandas, mas é fácil se sentir um, devido ao esquecimento relegado àqueles cumes.

Conta Giancarlo em relato publicado no site da Associação dos Montanhistas de Cristo (http://www.montanhistasdecristo.com.br/andar/and27.htm#come) que, para fazer a travessia da estação Véu de Noiva na Ferrovia Curitiba – Paranágua até o Morro Mãe Catira, nas orilhas da Estrada da Graciosa, foram necessárias oito investidas ao longo de quase dois anos, entre 1996 e 1998.


VAI ENCARAR?: Panorama das montanhas da Serra do Ibitiraquire

Vejamos como Gian, mais conhecido como “Cover” concluiu a aventura em seu relato:

"Totalizamos 32 horas de caminhada desde a região do Véu de Noiva. Depois de 3 dias andando no meio do mato, com cipó segurando na canela, bambu enroscando na mochila e caraguatá espetando a perna, era estranho caminhar na estrada. Andávamos até meio tortos e levantando a perna mais alto que o normal. Do jeito que nos recepcionaram no recanto da Graciosa parecia que estávamos voltando da guerra. Não sei se parecíamos mendigos ou fugitivos de batalha, com as mochilas todas sujas, camisas manchadas de tanto barro e as calças todas rasgadas pela vegetação. Só para dar uma idéia, tinha um de nós que não tinha metade da perna direita da calça (a perna esquerda era calça, e a perna direita era bermuda). Melhor do que o gosto do caldo de cana do recanto só mesmo o gosto da vitória. Fazia um ano e dez meses que tínhamos este plano "engasgado na garganta" e parecia que a conclusão da travessia era um sonho, mas o sonho era real: a travessia estava completa".

No contexto dessa travessia, para apimentar a história, houve uma grande tragédia. Na Curitiba da época, tanto o grupo de Giancarlo, montanhistas da Associação Montanhistas de Cristo (AMC), quanto outro grupo chamado de “Poetas da Montanha” faziam um duelo saudável para ver quem iria finalizar a travessia primeiro. O último grupo, liderado pelo Elcio Douglas Ferreira e Oséias “Black”, estava em desvantagem, por não ter se dedicado tanto à exploração daquela serra como o grupo dos irmãos “Cover” (Giancarlo e Tavinho).

Mesmo sem ter feito tantas investidas e sem contar com equipamentos modernos como GPS ou simples celular, Black saiu sozinho de Curitiba numa gelada manhã chuvosa rumo à Farinha Seca para finalizar a travessia desde o morro do Balança, situado em frente à usina hidrelétrica do Marumbi. O dia estava tão ruim para caminhar que seu parceiro Elcio, que hoje achamos ser louco, disse que o Black estava maluco em tentar uma travessia dessa envergadura naquelas condições de tempo.

Black desapareceu na montanha, e seu corpo foi encontrado dias mais tarde por resgatistas do Cosmo, numa busca onde nervos e sentimentos se afloram até hoje. Recentemente redescobrimos o Balança. Ao longo de nossas explorações em suas escarpadas encostas, meu parceiro de indiadas Julio Fiori pôde estudar os últimos passos do Black e fazer uma reconstituição do que aconteceu naquele dia chuvoso de 1997. Quando o tempinho chuvoso e frio se repetem hoje, Fiori não exita em dizer: "Eta tempinho bom para morrer na Serra!" (http://altamontanha.com/Colunas/2967/o-misterio-do-balanca–parte-1)

Apesar da grande aventura, a equipe da AMC não deixou um legado na Farinha Seca. Após eles percorrerem seus morros, somente outra equipe, a dos Nas Nuvens Montanhismo, do atual presidente da Federação Paranaense de Montanhismo, Natan Fabrício, se aventurou por ali, fazendo a caminhada toda sem deixar uma trilha, que só foi aberta no ano passado por uma grande equipe liderada pelo Fiori e o próprio Elcio, onde tive o prazer de participar, após um ano inteiro de investidas onde fizemos uso de GPS e computadores para planejar a trilha, além do tecnológico podão.

A travessia ficou com 18 km. Nela escalamos os picos do Balança, Jurape, Mojuel, Macacos, Farinha Seca, Tapapuí, Casfrei, Pequeno Polegar e enfim o Mãe Catira, num trajeto que já foi feito de ataque, mas que permanece tão difícil quanto o Alfa Omega pelos mesmo motivos da famosa e proibida travessia marumbina.

Para finalizar as travessias casca grossa do Paraná, resta relatar a mais freqüentada e mais difícil de todas, a travessia da Serra do Ibitiraquire, o bloco montanhoso onde fica a maior elevação do Sul do Brasil, o Pico Paraná.


NO ALTO: Elcio Douglas, com ele não tem tempo ruim

Esta travessia foi realizada um pouco antes da Farinha Seca, em Abril de 1997 por Elcio Douglas, Corrêa e o falecido Black, que precisaram de 5 dias pra sair de onde hoje fica a Fazenda Pico Paraná e irem até o marco 22 da Estrada da Graciosa, passando pelos cumes do Itapiroca, Pico Paraná, Tupipiá, Cerro Verde, Luar, Ciririca, Agudo da Cotia e o passo entre o Tangará e o Cotoxós, cruzando mais tarde o planalto remoto e misterioso onde nasce o rio Mãe Catira. Calculo que este trajeto tenha 18 km, mas que no meio da mata fechada e sem trilha, tendo que, na maior parte do caminho, andar por dentro dos rios, esta travessia é de longe a travessias entre montanhas mais difícil que já fiz e ouvi falar no Brasil. (http://altamontanha.com/Aventura/1863/1o-travessia-pico-paranagraciosa)
Para aumentar o desafio, no réveillon de 2000 para 2001, na companhia de Ivon Cesar Salles, o “Sexta” e do lendário escalador paranaense Taylor Tomas, Elcio, que certamente é um dos montanhistas mais loucos da extensa fauna de montanhistas doidos deste Paraná, aumentou a travessia em mais 10 quilômetros.

Saindo quase no nível do mar, no Bairro Alto de Antonina, a equipe escalou a face leste do Pico do Ferraria, uma magnífica crista de mil metros de altura que só em 2011 recebeu uma trilha, aberta pelos “Cachorrões da Serra”, vencendo o Taipabuçu e Caratuva, para depois rumarem ao Sul para somente chegarem à civilização no marco 22 da Estrada da Graciosa. De tão famintos, o trio devorou uma macumba na beira da estrada, regada a galinha, melão e vinho Campo Largo. (http://altamontanha.com/Aventura/2435/a-travessia-do-milenio)

É difícil afirmar qual é a travessia mais difícil do Brasil. Há uns dez anos, uma equipe de São Paulo, liderados pelo Antonio Calvo, uniu três travessias na Serra da Mantiqueira: a Travessia Marins x Itaguaré, Serra Fina e Posto do Marcão x Visconde de Mauá, no Parque Nacional do Itatiaia, numa única travessia por eles denominada de “Transmantiqueira”, que seria a maior travessia entre montanhas do Brasil. De fato ela é, mas entre cada bloco montanhoso e outro, há extensos trechos de estrada rural e até BR´s, que tiram um pouco o ar de travessia em montanha da Transmantiqueira. Ela já foi feita inteiramente à pé e em solitário, mas só seria de fato aceita se fosse percorrida de começo a fim por trilhas, mesmo que tangencie algumas estradas.

Vejo que o futuro das grandes travessias seja unir trechos consolidados com novos trechos, fazendo que o começo e o fim fiquem cada vez mais distantes e completos.
Mesmo sem definir qual é a travessia mais difícil do Brasil e ainda incompleto, pois aqui retrato fatos que são do meu conhecimento, neste artigo posso concluir que a Travessia da Serra Fina não é nem de longe a mais difícil do Brasil, sendo apenas o fruto de um mito. Apesar de todas as histórias que citei, acredito que existam dezenas de outras travessias Brasil afora que sejam muito mais difíceis e também lindas como a Serra a Fina. Justiça seja feita e que o reconhecimento venha para os protagonistas das histórias produzidas por aqueles homens e mulheres que venceram o desconhecido e desbravaram serras inteiras em busca de aventura e superação.

* Pedro Hauck é escalador, montanhista, geógrafo, professor e atual editor do site Alta Montanha, onde publica suas experiências desde 2007. O Alta Montanha é um espaço virtual inteiramente dedicado ao montanhismo. Para visitá-lo, clique aqui.

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