E dicas essenciais para você conhecer novos lugares de bicicleta

Por Bruno Romano*

Saia do ônibus, trem ou carro e parta para uma viagem incrível de bike. A seguir roteiros no Brasil e no exterior que são especialmente convidativos ao cicloturista – e dicas essenciais para você conhecer novos lugares, pessoas e culturas do melhor jeito que existe.

Sem demônios na Tasmânia

Uma das 30 maiores ilhas do mundo, a Tasmânia pode ser percorrida de norte a sul em uma viagem de bike de seis dias. Pertencente à Austrália e localizada a cerca de 240 quilômetros ao sudoeste do país, esse pedaço de terra de baixa altitude tem temperaturas amenas e permite uma expedição pela costa leste, ligando duas importantes cidades: Launceston e Hobart, ambas com vôos diretos para Sydney, Brisbane ou Camberra.

O rolê se entende por paisagens do oceano Pacífico, com direito a passagem por parques nacionais e visitas a cidades coloniais. Com média diária de 70 quilômetros, o trajeto contempla três das quatro melhores regiões de vinhos da Tasmânia. Em Launceston, Bicheno e Hobart é possível conhecer vinícolas e tomar uma taça para acompanhar a refeição. A Cycling Tours organiza bons roteiros na região.

Se o viajante puder conhecer o país entre o fim de fevereiro e o começo de março, ainda corre o risco de curtir o Clarence, um festival de jazz de seis dias, além de um concerto anual ao livre, em Hobart, com shows ao vivo de músicos locais.

BRASIL!

Nos passos do imperador

A estrada mais usada por dom Pedro I foi feita com tanto capricho que dura até os dias de hoje. Os 1.600 quilômetros que passaram a ser conhecidos como a Estrada Real são atualmente um paraíso para adeptos das trilhas e viajantes de bike, com excelente sinalização e estrutura hoteleira para os cicloviajantes. Como nos tempos do imperador, desbravar o percurso completo – que cruza os estados de São Paulo, Rio e Janeiroe Minas Gerais – continua sendo tarefa difícil. Mas, para ajudar, a estrada foi desmembrada em trechos menores. Alguns deles, como o que liga as cidades mineiras de Diamantina e Ouro Preto, reservam ainda diversas cachoeiras próximas à trilha. Já o trecho final, com destino a Paraty (no caminho Velho), cruza impressionantes riquezas naturais da serra do Mar.

O trajeto liga o que já foi uma região de extração de minérios com o litoral, por onde tudo era escoado para a Europa. Passou a ser a principal opção de deslocamento pela região na época, e muito do que se vivia no período pré-independência ainda pode ser resgatado nas pequenas cidades do percurso. Essa mistura de história com expedição faz da Estrada Real um roteiro completo. Em um mesmo caminho é possível contemplar atrações como o Teatro Municipal de Sabará (MG), o segundo mais antigo do país, e a mata peculiar da serra do Espinhaço, em um grande trecho do Parque Nacional da Serra do Cipó.

Para o experiente cicloviajante Arthur Simões, que já rodou o mundo com sua magrela, este é um roteiro imperdível. “Foi minha primeira experiência em viagens de bike, mas já voltei lá outras vezes. Quando você viaja pedalando está mais aberto e exposto, por isso acaba interagindo mais com todo mundo. O povo mineiro é hospitaleiro, cativante, e isso é o diferencial de um bom roteiro”, diz ele, sobre o trecho de Minas Gerais. O site da Estrada é completíssimo e ajuda a planejar suas cicloférias.

Tailândia de norte a sul

No Brasil, diríamos do Oiapoque ao Chuí. Mas na Tailândia a travessia é de Chiang Mai a Phuket. Do extremo norte ao sul do país é possível realizar uma expedição de 2.170 quilômetros – com a capital Bangcoc bem na metade do trajeto. O roteiro pode se dividir em três, com a opção de se escolher apenas um dos trechos.

O povo acolhedor, os preços acessíveis e as belezas naturais são uma ótima combinação para quem viaja de bike, e isso a Tailândia oferece de sobra. Tudo começa com o trecho norte de Chiang Mai a Kanchanaburi (890 quilômetros), uma região montanhosa e bastante verde. Destaque para a cidade de Sukhothai (nascimento da felicidade, em tailandês), onde está um parque histórico de mesmo nome, a 10 quilômetros do centro, com mais de 190 templos que datam do século 14.

É no trecho central, de Kanchanaburi a Hua Hin (440 quilômetros), que os cicloturistas passam pela capital Bangkok, em uma região de transição para o clima do sul. Descendo de Hua Hin a Phuket, na perna final, o viajante terá a companhia constante do mar de Andamão. Se for para escolher um dos três trechos, esta é uma das melhores opções. Além de um clima mais agradável, a região conta com passagem pelo Parque Nacional de Khao Sok, localizado em uma cidade homônima. São mais de 600 quilômetros quadrados de floresta tropical virgem, com cachoeiras, lagoas e árvores ancestrais, em um cenário habitado por elefantes, leopardos e diversas espécies de aves. Para fechar o roteiro, cruza-se uma ponte pedalável até a última província. Phuket é a maior ilha da Tailândia, e por sua beleza, é chamada de pérola do sul. Para quem prefere fugir da muvuca, há várias outras ilhas e praias menos buxixadas por perto. Saiba mais aqui.

BRASIL!

Rolê europeu em Santa Catarina

O roteiro do vale Europeu é um dos primeiros concebidos no Brasil pensando-se especificamente no cicloturismo. Em uma viagem sugerida de uma semana, pode-se percorrer uma região bastante particular do interior de Santa Catarina. A média diária de pedal é de 50 quilômetros, em um total de sete etapas que somam 350 quilômetros por estradas com baixo fluxo de veículos, com início e fim na cidade de Timbó.

Pequenos vilarejos e cidadezinhas de colonização européia dão o tom do passeio, que tem como pontos fortes a segurança, a tranquilidade e a receptividade dos locais. Além de Timbó – local onde se retira o passaporte e o certificado de cicloturista oficial do passeio –, fazem parte do trajeto as cidades de Pomerode, Indaial, Ascurra, Rodeio, Doutor Pedrino, Rio dos Cedros, Benedito Novo e Apiúna. Esses nove municípios firmaram um convênio para preservar o circuito, idealizado pelo Clube do Cicloturismo.

Os pontos de apoio, a estrutura e a sinalização tornam o vale Europeu uma boa opção para cicloturistas iniciantes ou pouco experientes. Por outro lado, o desafio de cruzar o vale e o contato direto com uma cultura pouco explorada pelo turismo no país transforma-o em um roteiro recomendado para todos os cicloviajantes.

Cuba ainda mais libre


Com automóveis andando em limite baixo de velocidade e uma cultura que respeita a bicicleta, Cuba é um dos países que melhor recebem cicloviajantes. “O povo cubano, que viveu por muitos anos um embargo econômico, se acostumou a usar a bike como meio de transporte e parece se identificar com um gringo cortando o país em cima de uma bicicleta”, diz Erik Carnevalli, empresário e cicloturista que atravessou 1.500 quilômetros no país.

Para quem não conhece a ilha, ou quer vê-la com outros olhos, a bike pode ser a companheira ideal. Quanto mais tempo melhor, mas duas semanas já são suficientes para conhecer grande parte do país pedalando. Nesse tempo, deve-se percorrer uma média de 60 quilômetros por dia, muitos deles em estradas de asfalto. Além da capital, Havana, outros pontos merecem entrar no roteiro, como Trinidad, um povoado tombado como patrimônio da humanidade. Para chegar até lá, no entanto, é preciso enfrentar a serra de Escambray, com um desnível de 1.500 metros.

O tratamento com quem vem de fora – e principalmente de bike – costuma ser dos melhores. “A pessoa que me hospedou próximo a Havana já ligou para um amigo de outra cidade ajeitando um novo pernoite para mim, sem eu precisar pedir nada”, conta Erik.

Não esqueça de que Cuba exige visto, que libera a visita por 30 dias, com outros 30 prorrogáveis.

BRASIL!

Um outro olhar sob a Chapada

Poucos roteiros de bike comparam-se em beleza a este que desbrava as belezas da chapada Diamantina. Zona rica em biodiversidade, a Diamantina é um grande conjunto de serras no centro da Bahia, que não só tem as maiores montanhas – o mais alto quase chega a 2 mil metros – como as cachoeiras mais extensas da região. Já dá para imaginar o sobe e desce, com direito a recompensas inigualáveis por todo o caminho. Como o parque nacional da Diamantina e seu entorno são enormes (152 mil hectares), a bicicleta é uma ótima aliada para percorrer as trilhas.

Sem sinal de asfalto, o pedal ali exige cuidados especiais com o corpo e os equipamentos, para evitar paradas em locais muito ermos e isolados. Para quem decidir ir por conta própria, é recomendado um guia local, justamente pela grande distância entre povoados e a dificuldade de navegação em alguns trechos. Outra opção são roteiros fechados, como o da agência Pisa Trekking, que organiza um incrível circuito de oito dias. Com partida e retorno em Lençóis, o trajeto começa em Igatu e segue no sentido de Mucugê, Guiné e vale do Capão.

No rolê se percorre, em média, 40 quilômetros diários. O pacote (a partir de R$ 4.100, sem aéreo) inclui as mountain bikes, hospedagens, refeições e traslados das bagagens. Em Lençóis fica o aeroporto mais próximo desse paraíso brasileiro – outra opção é vir por terra desde Salvador.

Rota do sonho nos Alpes

Falar em uma viagem com peso no bagageiro em plenos Alpes pode assustar a princípio. Mas não é o caso da estrada de Tauren, que cruza a Áustria no roteiro que é considerado o paraíso do cicloturismo europeu.

O pedal de 270 quilômetros começa em Krimml, onde estão as maiores cachoeiras dessa região da Europa. Com os Alpes de fundo, o roteiro segue pelo vale onde escorrem os rios Salzach e Saalach. Por isso não há muito sobe e desce – com exceção do trecho entre Krimml e Salzburg, com um desnível de mais de 600 metros. Essa etapa marca a primeira metade da viagem e também o fim da formação geográfica das cordilheiras que beiram a rota. Na sequência, o trajeto segue até a afluência com o famoso rio Danúbio, na cidade de Passau, ponto de parada final.

Perfeita para as bikes, a estrada é asfaltada em mais da metade do caminho, com alguns trechos de terra batida. A melhor temporada acontece entre maio a outubro. São recomendados seis dias para uma travessia tranquila, aproveitando para ver castelos, cavernas (em Werfen) e lindas cidades como Salzburg, onde Mozart viveu por muito tempo.

BRASIL!

Com fé se pedala ao longe

Prova do crescimento do cicloturismo no país, o Caminho da Fé deixou de ser percorrido apenas por andarilhos e passou a receber indicações e roteiros pensando também na bicicleta. Rodeado por uma aura de introspecção, esse roteiro é visto como uma verdadeira peregrinação. De fato, é daquelas viagens de bike que envolve muito empenho em trilhas de terra e uma dose de espírito aventureiro para enfrentar seus cerca de 400 quilômetros, com destino a cidade de Aparecida, em São Paulo.

Entre Águas da Prata, na divisa de São Paulo com Minas Gerais, e a basílica de Aparecida são cerca de 320 quilômetros – este é um trecho que entra em Minas e retorna a São Paulo e que faz parte de todas as opções de trajeto do caminho.

No mais, o viajante pode escolher entre diversos pontos de partida, o mais próximo a cerca de 20 quilômetros e o mais longo a quase 200 quilômetros da divisa entre os dois estados.

Nos moldes do Caminho de Santiago, os viajantes seguem um caminho bem demarcado, no ritmo que quiserem, com direito a descontos e facilidades para quem adquirir a credencial de viajante oficial (R$ 5), disponível em pousadas e hotéis de cidades do início da travessia. Como a maior parte do percurso é em zona rural e descampada, alimentação adequada e hidratação são fundamentais para se completar o percurso com sucesso.

(*Reportagem publicada originalmente na Go Outside de março de 2012)