O Havai é aqui

Praias perfeitas, atletas de ponta e infraestrutura transformam o Brasil em uma das mecas do kitesurf no mundo

Praias perfeitas, atletas de ponta e infraestrutura cada vez mais profissa para receber campeonatos e turistas transformam o Brasil em uma das mecas do kitesurf no mundo

Por Maria Clara Vergueiro e Maria Fernanda Ribeiro


SURF DE PIPA: Maurício Abreu é um dos nossos maiores atletas do kite

(Foto: Leo Estevão)

HÁ MUITAS RAZÕES PARA que kitesurfistas do mundo todo declarem, aos quatro ventos, o amor pelo Brasil: atletas de projeção internacional, hospitalidade ímpar, praias extensas, ventos poderosos e paisagens de cartão-postal. E o melhor: uma infraestrutura cada vez mais profissional, com escolinhas, campeonatos, “safáris” e até pousadas kite friendly para atrair turistas e praticantes de todas as partes. Escolha um bom motivo para botar o pé na estrada e a pipa no céu, e lá estará o nosso país como destino preferido de 9 entre 10 amantes deste que se tornou um esporte legitimamente brasileiro.

Nas praias do Nordeste, é de cair o queixo a performance de moleques com menos de 15 anos, filhos de locais, voando em manobras de freestyle como se fossem veteranos. Também pudera: essa geração cresceu com o kitesurf, que desembarcou no Brasil no início dos anos 2000.

Foi nessa época que o paulista Pedro Vianna migrou do windsurf para o kite depois de dividir com alguns amigos vanguardistas o frisson da chegada dos primeiros equipamentos a Ilhabela, no litoral norte de São Paulo. “A onda até então era ir para Aruba praticar wind”, relembra Pedro, que foi na contramão da tendência e se mandou em uma longa viagem para conhecer melhor aquele esporte que estava nascendo. Em sua passagem pela Europa, começou a ser abordado por amigos gringos sobre os melhores lugares para se visitar o país de kite. “Percebi que os caras não tinham nenhuma noção do que encontrariam aqui. Temos praias de 30 quilômetros, com condições diferentes em cada pedaço, como se fossem lugares distintos um do outro”, explica ele, que decidiu montar uma operadora de turismo, a EXBR, para ajudar os mais desavisados a aproveitar todos os recursos da costa brasileira, com o kite como a grande estrela dos roteiros.

Quando o esporte começou a ser praticado, os adeptos perceberam que os ventos do Hemisfério Norte, muito fortes e “picotados” (ou seja, com rajadas e sem constância), não eram os melhores para a pipa. Elegeram então como picos perfeitos as praias próximas à linha do Equador, por seus ventos médios e constantes e sua água quente.


VAI BRASIL!: Entre os talentos do kite, estão Guilly Brandão (nesta foto) e Bruna Kajiya
(Foto: Divulgação)


(Foto: Divulgação)

Os points preferidos passaram a ser o Havaí, Caribe e Brasil. Só os dois primeiros destinos oferecem certos obstáculos para que se tornem realmente atrativos para quem curte esse esporte: o Havaí é geograficamente “fora de mão” para muitos estrangeiros e, em praias caribenhas como as da República Dominicana, a costa costuma ser pequena e cheia de pedras, o que acaba obrigando o velejador a interromper o rolê, caminhar até a praia seguinte e, eventualmente, passar por alguns perrengues. E o Brasil? Ah, o Brasil… Aqui as praias não acabam, e as opções são muitas. “O pessoal começou a velejar a costa inteira. Perceberam que, em um mesmo dia, dava para curtir quatro picos diferentes. Só de Jericoacoara a Fortaleza (CE), existem mais de 40 lugares incríveis para velejar de kite”, conta Pedro.

Para otimizar tanta fissura, surgiu o kite-safári, uma proposta de roteiro turístico criado aqui e que já começa a ser replicada em países como a Austrália, onde o esporte também é popular. Quem opta pelo kite-safári tem a mordomia de velejar o dia inteiro, com um veículo 4×4 acompanhando todo o percurso e levando comida, bebida, malas e equipamentos. Depois de uma sessão de kite, é só pular para dentro do carro e partir para a praia seguinte. E, quando a noite chega, basta voltar para o hotel tranquilamente. Dependendo do pacote, pode-se optar por um “motorista-professor”, o que permite que um grupo de amigos com níveis diferentes de kite possa estar na mesma trip. As operadoras Eco Adventure (ecoadventure.tur.br), no Delta do Parnaíba, e EXBR (exbr.tur.br), oferecem esse tipo de serviço em todo o Brasil.

COMO CONSEQUÊNCIA NATURAL desse cenário promissor, foram aos poucos surgindo os campeonatos e campeões nacionais. Em sua segunda edição, o Kite Tour, agora patrocinado pela Volkswagen, teve início em agosto passado na praia do Cumbuco (CE) e terá outras quatro etapas até o final do ano, passando por Barra de Cunhaú (RN), Florianópolis (SC), Ilhabela (SP) e Rio de Janeiro (RJ). Com 350 inscritos, o evento é um dos mais importantes do calendário nacional e tem uma bela premiação: R$ 120 mil. O organizador Duda Magalhães acredita que os resultados dos atletas brasileiros em competições fora do país foram fundamentais para o Kite Tour voar mais alto – no ano passado o evento tinha duas etapas a menos e uma premiação menor. “Conquistamos o respeito dos gringos com o trabalho realizado até aqui e com os resultados no circuito mundial”, afirma.

Em 2012, o Brasil vai sediar, pela primeira vez, a Copa do Mundo de Kitesurf, com um time de anfitriões do alto escalão. A paulista Bruna Kajiya, 24, é campeã mundial de freestyle, uma categoria ultratécnica que combina manobras (cada vez mais rápidas) com vôos (cada vez mais baixos). O primeiro título brasileiro dessa local de Ilhabela veio em 2006. De lá para cá, Bruna tem inspirado muitas outras mulheres a se aventurar nas pranchas voadoras. “Quero ajudar a desenvolver o kite feminino e mostrar que as mulheres também conseguem ser muito grandes atletas”, conta Bruna, que levou para o kite o talento aprendido em anos de surf. Companheira de vitórias, mas não de modalidade, a carioca Milla Ferreira, 20, é o principal nome brasileiro do kitewave – que usa a força do vento para surfar as ondas. Atual campeã brasileira, Milla ocupa o 5º lugar no ranking mundial.

Antes das duas moças, o paulista Guilly Brandão, 30, já era reconhecido como um dos principais nomes do esporte no mundo, tendo sido tetracampeão brasileiro de freestyle. Surfista na adolescência, ele resolveu se voltar para as ondas e trocou a modalidade que o consagrou pelo kitewave. “Vendo o potencial que essa categoria tem de ajudar o esporte a crescer, decidi juntar as minhas duas paixões: o kite e o surf. E isso foi para mim a realização de mais um sonho”, explica Guilly, que já contabiliza três títulos mundiais sobre as ondas.

Quem se deu bem com a troca de Guilly foi o carioca Reno Romeu, 21, que hoje sofre menos pressão da concorrência no freestyle. Reno começou velejando com 7 anos, aos 11 foi levado pelo pai a descobrir o kite recém-chegado ao país e, dois anos mais tarde, estreava no circuito profissional. Hoje é top 10 mundial e vive de praia em praia em busca dos melhores picos para o kite. Menino viajado, ele diz que não consegue escolher o seu point preferido no mundo, mas inclui o Brasil na lista dos grandes. “Provavelmente os melhores lugares onde já velejei foram Egito, Caribe, Austrália, Fiji e, claro, Brasil.”

APESAR DE SER BASTANTE POPULAR na costa sudeste e sul do país, o kitesurf ainda é muito associado à região Nordeste, principalmente às praias do Ceará, como Cumbuco e Jericoacoara. Localizada a 40 quilômetros de Fortaleza, a praia do Cumbuco é conhecida hoje como a “cidade do kite”, com agências e escolas de esporte especializadas. O lugar já conta com infraestrutura consolidada e, lógico, os bons ventos característicos da região. Por ali, a escola Kiteline (kiteline-cumbuco.com) é bem recomendada. A Kiteline oferece aulas para iniciantes, avançados e manobras específicas. O pacote com 10 aulas sai por R$ 800, e 1 hora de aula avulsa custa R$ 140.

Veterano respeitosamente chamado de “padrinho” do kite no mundo, o baiano Maurício Abreu confirma a preferência mundial por essa parte da costa brasileira. “O Ceará é o destino número 1 do kite-turismo. Um em cada três praticantes europeus vem treinar e passar férias por essas bandas”, conta. Estrangeiros como o craque australiano Ben Wilson volta e meia são vistos pelas praias do Estado. Conhecido mundialmente pelo surf arrojado com o kite, Ben já está com a passagem comprada e vem ao Brasil em novembro.

Por todas essas felizes características, o kite deve se expandir ainda mais nos próximos anos. Na carona desse fenômeno, pousadas kite friendly começam a pipocar pela costa, como a Mar de Estrelas (pousadamardeestrelas.com.br) em São Miguel do Gostoso (RN), que trabalha em parceria com o vizinho Club Kauli Seadi (kauliseadi.com.br). Outro lugar paradisíaco e temperado com bons ventos é a Casa da Aventura (ecotreino.com.br/casa-da-aventura), na praia da Feiticeira, em Ilhabela (SP). Ambos os lugares oferecem boa estrutura aos praticantes de kite, como aluguel de pranchas, pipas, barras e acessórios, além de outros serviços, como montagem, desmontagem e lavagem dos equipamentos. Há também o Rancho do Preá, a 10 quilômetros de Jericoacoara, pioneiro na hospedagem voltada para praticantes de kite. Tudo para que o kitesurfista seja mais do que bem-vindo, tendo todas as condições a seu dispor para explorar as praias e voar bem alto.

Vento & água fresca
Onde praticar diferentes modalidades de kite
(Fotos: Divulgação)

>> Kitewave: quando o surf se une com o kite. Além de vento, exige boas ondas. Quem entende do assunto diz que é mais fácil surfar com a pipa do que da maneira tradicional. Melhores praias no Brasil: Lagoinha e Pipa (RN); Ibiraquera e Imbituba (SC); Barra da Tijuca (RJ).


>>
Kiterace: modalidade de “corrida” do kite. Precisa de pouco vento e nasceu do interesse dos organizadores das competições de envolver o público, num espetáculo mais fácil de acompanhar. Hoje está presente em todos os eventos e é a que atrai mais praticantes. Há chances de virar esporte olímpico nos Jogos do Rio de 2016. Melhores praias no Brasil: Barra do Cunhaú (RN) e Ilhabela (SP).


>> Freestyle: cheia de manobras realizadas no ar, é a mais técnica das modalidades que usam a pipa. Hoje os saltos não são tão altos como no surgimento do esporte, o que amplia o grau de dificuldade de execução das manobras, que têm ser ainda mais rápidas. Pede águas calmas e bons ventos. Melhores praias: Cumbuco e Fortaleza (CE).

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de setembro de 2011)